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QUANDO SER UMA PESSOA BOA VIRA UM PROBLEMA

(Quando a dificuldade de dizer “não” encontra alguém perfeitamente disposto a se aproveitar disso.)

Tem gente que parece ter nascido sem a palavra “não” instalada.
Você pode pedir:
— Consegue me levar ao aeroporto às quatro da manhã?
— Sim, claro. Por que não?
— Pode ficar com meu cachorro no fim de semana?
— Claro.
— Ele toma remédio de seis em seis horas.
— Sem problema.
— Ah, e precisa dormir na sua cama porque fica ansioso sozinho.
Pausa.
— Tudo bem.
Mais algumas semanas e essa mesma pessoa estará buscando o filho de
alguém na escola, cobrindo o turno de um colega, regando uma samambaia
que não sabe de quem é e guardando três caixas na garagem “só por alguns
dias”.
Tudo isso com um sorriso educado e uma vontade crescente de desaparecer
no mato.
“Ele tem um coração muito bom”, costumam dizer.
Normalmente é elogio.
Mas, dependendo da história que vem depois, começo a desconfiar.
Porque às vezes “ter um coração bom” significa fazer favores que não queria
fazer, emprestar aquilo de que precisava e reorganizar a própria vida para não
desagradar ninguém.
A pessoa começa emprestando uma furadeira.
Depois está cobrindo o sábado de alguém.
Quando percebe, está a pé porque emprestou o carro para o vizinho viajar com
a família.
E quase agradecendo pela oportunidade.

Há pessoas que realmente têm enorme dificuldade de dizer não.
Não porque não percebam o abuso.
Muitas vezes percebem perfeitamente.
Só que o desconforto de estabelecer um limite parece pior do que o incômodo
de ser explorado.
— Não quero ficar de mal.
— Não quero parecer egoísta.
— Ele está precisando.
— É só dessa vez.
Curiosamente, “só dessa vez” possui uma capacidade impressionante de
reprodução.
E sempre aparece alguém disposto a descobrir rapidamente quem não sabe
negar.
O primeiro pedido vem com agradecimento.
O segundo também.
Depois de algum tempo, o favor começa a parecer obrigação.
A pessoa que sempre ajuda vira aquela que todos procuram quando precisam
de alguma coisa.
O fenômeno inverso nem sempre acontece.
Até o dia em que ela resolve experimentar uma novidade radical.
— Não posso.
Pronto.
Acabou uma carreira impecável de boa pessoa.
No trabalho, ela “não sabe trabalhar em equipe”.
Na família, “está diferente”.
Nas amizades, “se acha”.
Nos relacionamentos, ficou “fria”, “egoísta” ou “insensível”.
Uma avaliação completa de caráter baseada em um único critério: o quanto
você ainda é útil.
Enquanto ela aceita tudo, é maravilhosa.
Prestativa.

Parceira.
Alguém com quem “sempre se pode contar”.
Mas basta fechar a torneira uma vez para algumas pessoas esquecerem todos
os baldes que já encheram nela.
E é aí que muita gente volta atrás.
Não porque mudou de opinião.
Não porque realmente queira ajudar.
Mas porque não quer ocupar o papel de vilã na história de outra pessoa.
Algumas precisam aprender que podem dizer “não” e continuar sendo boas.
Outras precisam aprender algo talvez ainda mais difícil: ouvir “não” não as
transforma em vítimas.
Às vezes a pessoa simplesmente está cansada.
Tem outro compromisso.
Não quer.
E, por mais revolucionário que pareça, “não quero” também pode ser uma
razão suficiente.
Uma relação saudável deveria sobreviver a isso.
Pode haver frustração. Pode haver aquela pequena cara feia que a
humanidade aperfeiçoou ao longo de milhares de anos.
Mas deveria sobreviver.
Porque, quando uma relação só funciona enquanto uma pessoa cede, talvez
aquilo nunca tenha sido harmonia.
Talvez fosse só conveniência.
Às vezes, você não perde uma relação quando começa a dizer “não”.
Só descobre qual era a condição para ela existir.
Um coração bom continua sendo uma qualidade.
Só não precisa vir acompanhado de uma porta sem fechadura.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com

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