Existem versões nossas que não morrem em grandes acontecimentos.
Não há despedida, cerimônia ou data para marcar no calendário.
Elas simplesmente deixam de existir aos poucos.
Um dia você percebe que aquela banda que ouviu durante anos quase nunca aparece mais na sua playlist. Não aconteceu nada com ela. Você não passou a odiá-la, não descobriu algum escândalo envolvendo o vocalista nem teve uma revelação musical transcendental.
Você apenas ouviu outras coisas.
Descobriu bandas novas. Outros estilos começaram a fazer sentido. Algumas músicas antigas passaram a cansar depois de centenas de repetições.
Até que, em algum momento, você coloca sua própria playlist para tocar e pensa que ela parece pertencer a outra pessoa.
Mas pertence a você.
Só não exatamente à mesma pessoa de alguns anos atrás.
Algumas amizades terminam assim também.
Sem briga.
Sem traição.
Sem aquela última conversa dramática em que alguém bate a porta e decreta o fim de uma história.
A rotina muda.
Um começa a trabalhar em outro lugar. O outro casa. Tem filhos. Muda de cidade. Os horários deixam de coincidir.
Primeiro vocês conversam todos os dias.
Depois algumas vezes por semana.
Então mandam uma mensagem dizendo:
“Precisamos marcar alguma coisa.”
Nunca marcam.
Até que chega um aniversário e você percebe que já não sabe muito bem o que está acontecendo na vida daquela pessoa que um dia sabia tudo sobre você.
Ninguém fez nada de errado.
Ainda existe carinho.
Mas intimidade também precisa de convivência para sobreviver.
E, às vezes, duas pessoas que já foram inseparáveis acabam se tornando quase estranhas uma para a outra.
Também acontece com aquilo que jurávamos querer para sempre.
Uma profissão, por exemplo.
Talvez você tenha estudado anos para chegar até ali.
Talvez tenha desejado aquele trabalho, comemorado quando conseguiu e acreditado sinceramente que poderia fazê-lo pelo resto da vida.
Até que um dia percebe que já não suporta ouvir as mesmas reclamações.
Fazer os mesmos relatórios.
Escrever os mesmos ofícios.
Dar as mesmas orientações.
Responder às mesmas perguntas.
Resolver problemas que parecem apenas trocar de nome antes de voltarem para sua mesa.
O trabalho não necessariamente piorou.
Talvez você tenha mudado.
E essa possibilidade costuma ser mais difícil de admitir.
Porque fomos ensinados a imaginar identidade como alguma coisa sólida.
“Eu sou assim.”
“Eu gosto disso.”
“Eu quero aquilo.”
Como se assinássemos um contrato aos vinte anos obrigando a pessoa de quarenta a cumprir todas as promessas feitas por alguém que nem existe mais.
E também não é exatamente como instalar um upgrade.
A palavra sugere uma versão aprimorada, corrigida, superior à anterior. Às vezes até é. Há mudanças que nos tornam mais maduros, mais conscientes, mais inteiros.
Mas nem sempre.
A humanidade, infelizmente, não vem com atualização automática corrigindo bugs.
Alguns permanecem.
Outros aparecem.
Alguns você aprende a administrar. Outros insiste em carregar por anos, mesmo sabendo exatamente onde estão.
Porque mudar não significa necessariamente melhorar.
Às vezes significa apenas tornar-se diferente.
Deixar para trás aquilo que já não cabe, mesmo que um dia tenha feito sentido. Abrir espaço para novos gostos, novos desejos, novas escolhas e até novas contradições.
Mudança não é hierarquia.
Não se trata de superioridade, mas de compatibilidade.
A pessoa que você é hoje não precisa ser melhor do que aquela que foi ontem. Precisa apenas fazer mais sentido para quem você se tornou e para o lugar que ocupa agora.
Não é sobre apagar quem fomos, como se as versões anteriores fossem erros que precisassem ser corrigidos.
É sobre parar de obrigar o presente a vestir uma pele antiga só porque um dia ela serviu.
Não é sobre virar alguém melhor.
É sobre perceber quando uma versão deixou de caber e ter coragem de não continuar vestindo-a só porque um dia foi sua.
Existem coisas que juramos que jamais faríamos e depois fazemos.
Coisas que acreditávamos querer e deixamos de desejar.
Lugares aos quais sonhávamos pertencer e que, quando finalmente chegamos, já não parecem feitos para nós.
Isso não significa necessariamente fracasso ou perda.
Talvez seja apenas muda de pele.
Porque existe uma pequena morte acontecendo enquanto vivemos.
A versão que acreditava em determinadas coisas desaparece.
A que tolerava algumas situações deixa de tolerar.
A que precisava da aprovação de certas pessoas aprende a viver sem ela.
A que sonhava com uma vida específica começa a desejar outra completamente diferente.
E nenhuma dessas mudanças costuma acontecer de uma vez.
A gente vai deixando pedaços pelo caminho.
Um hábito aqui.
Uma amizade ali.
Uma certeza antiga.
Uma música que já não emociona.
Um sonho que perdeu o sentido.
Até olhar para trás e encontrar alguém estranhamente familiar.
Você reconhece aquela pessoa.
Lembra perfeitamente de como ela pensava, do que desejava, de quem amava.
Mas já não conseguiria viver exatamente como ela.
Talvez crescer seja também aceitar isso.
Não precisamos permanecer fiéis a todas as versões que fomos.
Podemos agradecer algumas.
Perdoar outras.
Sentir saudade de algumas delas.
E enterrar aquelas que já cumpriram seu papel.
Porque mudar não significa abandonar quem fomos.
Às vezes significa carregar tudo aquilo conosco sem continuar morando lá.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

























