A casa pode passar dias em estado de abandono emocional sem incomodar ninguém que more nela. Convivemos em perfeita harmonia com o copo esquecido sobre a mesa, os sapatos largados perto da porta e aquela sacola que ninguém sabe exatamente o que contém, mas também ninguém tem coragem de jogar fora.
A poltrona deixa de ser um móvel e passa a exercer a função de guarda-roupa auxiliar. A louça se acumula na pia. Uma toalha molhada permanece sobre o sofá tempo suficiente para ser considerada parte da decoração.
Tudo segue normalmente.
Até alguém avisar que vai aparecer.
Não precisa ser uma autoridade sanitária, um fiscal da prefeitura ou a equipe de algum programa de televisão. Pode ser uma tia, um amigo ou um conhecido qualquer.
Também conhecido como visita.
Nesse momento, aquilo que não nos incomodava há dias se transforma numa emergência. A família inteira observa a casa como se a estivesse vendo pela primeira vez.
E não gosta do que vê.
Porque raramente arrumamos a casa por nós mesmos.
É para os outros que limpamos.
Não exatamente por consideração, mas porque ninguém precisa saber como realmente vivemos.
A faxina não nasce do amor pela organização.
Nasce do medo do julgamento alheio.
Do medo de sermos vistos de verdade.
Vistos como desorganizados, desleixados ou, pior, disfuncionais.
Porque, aparentemente, uma poltrona cheia de roupas já é prova de colapso moral.
Então limpamos.
Não para deixar a casa melhor para nós, mas para construir provas de que vivemos daquele jeito.
A preparação começa horas antes.
Então alguém anuncia:
— Eles estão chegando.
E a família inteira entra em estado de calamidade pública.
Uma pessoa varre. Outra recolhe objetos.
Uma terceira anda pela casa segurando coisas sem saber onde colocá-las.
Crianças recebem ordens contraditórias. Animais são acusados de crimes dos quais provavelmente são inocentes.
— Guarda isso.
— Onde?
— Em qualquer lugar!
“Qualquer lugar”, no ambiente doméstico, significa um espaço onde o objeto permanecerá perdido pelos próximos seis meses.
A faxina para visitas não serve apenas para eliminar sujeira. Ela reorganiza a nossa imagem pública.
Guardamos os remédios. Escondemos as contas.
Retiramos da geladeira o queijo mofado que está ali há tempo suficiente para ter desenvolvido consciência própria.
Empurramos sapatos para baixo da cama e recolhemos tudo o que possa sugerir que seres humanos realmente moram ali.
A casa apresentada às visitas não é exatamente uma residência.
É uma cenografia. Um apartamento decorado da nossa própria vida.
As almofadas, que normalmente passam o dia amassadas em algum canto, são cuidadosamente posicionadas. A manta do sofá, cuja verdadeira função é esconder uma mancha antiga, ganha uma dobra elegante.
A humanidade mente até sobre o estado do sofá. É um talento curioso.
A mesa recebe uma fruteira com frutas que ninguém pretende comer. O banheiro ganha uma toalha bonita que está ali apenas para ser admirada, porque quem ousar secar as mãos nela provavelmente será retirado do testamento.
Existe, naturalmente, a toalha destinada ao uso humano.
Ela está escondida atrás da porta.
Todo lar possui um lugar sacrificado para que os demais pareçam habitáveis.
Pode ser um quarto, uma lavanderia ou qualquer espaço disposto a receber tudo o que não encontrou destino durante a operação.
Mas o maior símbolo dessa organização emergencial talvez seja o guarda-roupa.
Durante a faxina para visitas, ele deixa de ser um móvel e passa a funcionar como depósito. Tudo o que não pode continuar visível é empurrado para dentro dele: roupas limpas, roupas sujas, roupas que ninguém sabe se estão limpas ou sujas, bolsas, caixas, documentos, sacolas, brinquedos, carregadores sem dono e objetos que serão procurados desesperadamente semanas depois.
Dependendo do tamanho, cabem também alguns traumas familiares.
A porta é fechada com o corpo.
Às vezes, alguém precisa encostar o ombro.
A faxina nasce desse medo ancestral de alguém descobrir que usamos o móvel como depósito e que ele não deve ser aberto até a visita ir embora.
Não porque exista algo criminoso ali.
Apenas uma avalanche de roupas capaz de soterrar a reputação da família.
Também existe um fenômeno curioso chamado “limpar o que ninguém verá”.
A pessoa sabe que todos ficarão apenas na sala, mas decide organizar o quarto, lavar o box e trocar a roupa de cama.
Porque nunca se sabe.
Alguém pode pedir para usar outro banheiro, querer conhecer o restante da casa ou entrar justamente no cômodo que julgávamos fora de perigo.
Não convém arriscar.
Depois de tudo pronto, chega a etapa mais importante: parecer que não houve esforço.
A anfitriã abre a porta com um sorriso leve, como se não tivesse passado a última hora esfregando o fogão e ameaçando abandonar a família.
— Entra. E não repara a bagunça.
Não há bagunça.
A bagunça foi escondida, comprimida, transferida para outro cômodo e ameaçada de morte caso tente aparecer.
A frase não é um pedido.
É uma armadilha.
A resposta esperada é:
— Que isso… Está tudo tão arrumado.
Só então a visita poderá entrar em paz.
Fique à vontade, mas não tanto.
Não abra gavetas. Não mexa nas almofadas. Não use a toalha bonita. Não repare que todas as superfícies estão impecáveis, mas existe uma porta fechada com uma determinação suspeita.
A visita também participa da encenação.
Elogia a casa, recusa comida duas vezes antes de aceitar e finge acreditar que aquele ambiente está sempre assim.
Não está.
Ela sabe porque faz a mesma coisa quando recebe alguém.
Essa talvez seja a parte mais fascinante dessa pequena fraude doméstica: todos conhecem o truque.
Todos têm uma gaveta impossível, um cômodo proibido ou uma pilha de roupas transferida temporariamente para outro lugar. Todos já esconderam a própria desorganização para parecer minimamente funcionais diante de pessoas que fazem exatamente o mesmo.
No fundo, a faxina para visitas não é sobre higiene.
É sobre controle, reputação e medo de que alguém enxergue, por trás das portas fechadas e das almofadas alinhadas, que estamos todos improvisando.
Durante algumas horas, a casa obedece.
As coisas ficam no lugar. A pia fica vazia. A sala parece pertencer a adultos responsáveis, e não a mamíferos cansados tentando atravessar a semana.
Por fim, a visita vai embora.
A porta se fecha.
Tiramos os sapatos, desmontamos as almofadas e devolvemos à casa sua personalidade verdadeira.
O depósito clandestino é reaberto.
Alguma coisa cai sobre nós.
A reputação sobreviveu.
A ordem termina.
E a vida recomeça.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)





























