Cada pessoa carrega um universo inteiro dentro de si.
Um mundo feito de memórias, medos, desejos, feridas, afetos e contradições.
Por isso, duas pessoas podem viver a mesma situação e sair dela contando
histórias completamente diferentes.
Até mesmo gêmeos idênticos, criados lado a lado e sob condições
semelhantes, desenvolvem personalidades próprias. Porque ninguém
atravessa a vida exatamente do mesmo modo. Cada olhar registra uma coisa.
Cada corpo sente de um jeito. Cada mente encontra suas próprias maneiras de
sobreviver.
Somos únicos. Não no sentido romântico e exagerado de que somos criaturas
absolutamente incompreensíveis, enviadas à Terra para cumprir uma missão
cósmica. Às vezes, somos apenas seres humanos tentando entender o que
fazer com aquilo que sentimos.
Algumas pessoas se recolhem quando estão tristes. Fecham portas, diminuem
a voz e desaparecem para dentro de si.
Outras explodem. Fazem discursos, batem portas, organizam um espetáculo
emocional com direito a plateia, intervalo e talvez uma parte II no dia seguinte.
Há quem paralise diante do medo. Há quem ataque. Há quem fuja. Há quem
transforme a dor em trabalho, piada, silêncio, comida, raiva ou controle.
O sentimento, por si só, não nos define.
Sentir raiva não faz de alguém uma pessoa agressiva. Sentir ciúme não
transforma automaticamente alguém em controlador. Sentir medo não torna
ninguém covarde.
O que fazemos com esses sentimentos, porém, diz muito sobre nós.
O problema é que, muitas vezes, não conseguimos apenas sentir. Somos
arrastados.
A raiva toma a palavra. O medo toma as decisões. O ciúme começa a
investigar. A tristeza fecha todas as janelas. E, quando percebemos, já agimos
sem pensar nas consequências, como se a emoção fosse uma autorização
para fazer qualquer coisa.
Isso também é humano.
Todos nós já falamos o que não deveríamos, tomamos decisões ruins ou
reagimos de maneira desproporcional. Às vezes, a consciência chega alguns
segundos depois. Em outras, demora semanas. O ser humano possui essa
habilidade impressionante de enxergar com clareza apenas depois que já fez a
bagunça.
Errar faz parte.
Mas existe uma diferença entre cometer um erro e transformar esse erro em
endereço fixo.
Quando repetimos continuamente os mesmos comportamentos, mesmo
percebendo que eles prejudicam nossa carreira, nossa família, nossas
amizades e nossas relações afetivas, já não estamos falando apenas de um
episódio isolado.
Estamos falando de um padrão.
Talvez você sempre se cale até que o corpo comece a cobrar aquilo que não foi
dito.
Talvez abandone as pessoas antes que elas possam abandoná-lo.
Talvez aceite situações que o machucam por medo de ficar sozinho.
Talvez procure controlar tudo ao redor porque não suporta a sensação de
incerteza.
Talvez reaja ao presente como se ainda estivesse preso a uma história antiga.
Os padrões não surgem do nada. Em algum momento, muitos deles nos
protegeram. Foram estratégias criadas para suportar rejeições, perdas,
humilhações, violências ou inseguranças.
O problema é que algumas defesas permanecem conosco mesmo quando o
perigo já passou.
Continuamos levantando muros em lugares onde já poderíamos abrir portas.
Identificar esses padrões não significa culpar-se por tudo o que aconteceu.
Significa compreender que, embora nem sempre sejamos responsáveis pelo
que nos feriu, somos responsáveis pelo que fazemos a partir disso.
A terapia pode ajudar a iluminar aquilo que repetimos no escuro: reconhecer o
que dispara certas reações, compreender de onde elas vêm e perceber quando
um ciclo começa, antes que nos conduza outra vez ao mesmo desfecho.
Não para oferecer respostas prontas ou ensinar alguém a viver, mas para
ampliar a consciência sobre escolhas, relações e comportamentos que, muitas
vezes, parecem acontecer no automático.
Reconhecer um padrão não basta para mudá-lo, mas torna mais difícil
continuar chamando de destino aquilo que também é repetição.
Aquilo que não reconhecemos costuma escolher por nós.
E mudar começa justamente aí: no instante em que deixamos de perguntar
apenas “por que isso sempre acontece comigo?” e começamos a perguntar:
“O que eu venho repetindo para que minha história termine sempre do mesmo
jeito?”
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

































