Todo mundo já passou por isso. Chave, celular, óculos, boleto, tampa de pote,
vontade de viver às 7h da manhã.
Existe um fenômeno silencioso, cruel e absolutamente banal que assombra a
humanidade desde que o primeiro ser humano decidiu possuir mais de três
objetos: as coisas somem dentro de casa.
Não somem na rua. Não somem em viagens internacionais, em aeroportos, em
rodoviárias ou em grandes tragédias cinematográficas. Somem ali, no ambiente
doméstico, a poucos metros de distância da nossa dignidade. E sempre no
momento mais inconveniente possível.
As malditas chaves somem bem quando já estamos atrasados. Porque chaves
raramente somem sozinhas. Elas levam junto a paz, o horário e a sanidade,
essa quadrilha organizada.
O carregador desaparece quando o celular está com 2% de bateria, pedindo
socorro. O controle remoto evapora entre o sofá e uma dimensão paralela. A
caneta, que estava na nossa mão há exatos quinze segundos, decide
abandonar a carreira pública e seguir uma vida espiritual.
E o mais ofensivo: quase sempre a coisa perdida está em um lugar idiota.
Em cima da mesa. Dentro da bolsa. Na primeira gaveta. No bolso da calça.
E, às vezes, o objeto está na nossa própria mão.
Poucas experiências são tão humilhantes quanto procurar o celular usando a
lanterna do próprio celular. É nesse momento que a vida nos encara de volta e
diz: “Parabéns. A civilização chegou até aqui.”
Há também o óculos. O óculos tem uma especial capacidade de humilhar seus
donos. A pessoa vasculha a casa inteira, acusa familiares, questiona a
arquitetura do imóvel, considera chamar um padre, até alguém dizer:
— Não está na sua cabeça?
E está.
Naturalmente, está.
Porque alguns objetos não desaparecem. Eles apenas revelam nossa falência
momentânea como espécie.
Mas há algo curioso nesse pequeno caos. Quando perdemos uma coisa dentro
de casa, não estamos apenas procurando um objeto. Estamos procurando
controle. Estamos tentando provar para nós mesmos que ainda sabemos onde
deixamos as coisas, que nossa rotina tem lógica, que nossa mente não virou
uma gaveta de talheres onde alguém colocou pilha, recibo antigo e um botão
que ninguém sabe de onde caiu.
A casa, esse lugar que deveria nos acolher, às vezes se transforma em
cúmplice do absurdo. Ela engole pares de meia. Esconde documentos
importantes. Multiplica potes sem tampa e tampas sem pote, num experimento
social que deveria ser investigado por cientistas sérios ou por mães muito
irritadas.
E a gente procura.
Procura com raiva, depois com método, depois com desespero. Abre a
geladeira sem motivo. Olha atrás da porta. Revira a bolsa como se estivesse
arqueologicamente escavando uma civilização perdida. Encontra nota fiscal de
três meses atrás, bala derretida, grampo de cabelo, uma moeda, um papel que
parecia importante em 2022, mas não encontra o que precisa.
Até que, do nada, aparece.
Sem explicação. Sem pedido de desculpas. Sem remorso.
A chave surge no aparador. O carregador estava atrás da almofada. O
documento estava dentro daquele envelope que você jurou que já tinha olhado
cinco vezes. A tampa do pote continua desaparecida, porque há limites até
para os milagres.
E então vem aquela mistura de alívio e irritação. Porque encontrar o objeto não
apaga o drama. Só prova que, por alguns minutos, fomos derrotados por uma
casa, uma gaveta ou uma superfície plana.
Talvez a vida adulta seja isso: pagar boletos, responder mensagens, fingir
maturidade em público e, de vez em quando, perder completamente a
compostura porque a chave do carro decidiu se camuflar ao lado de uma
sacola.
No fim, as coisas que somem dentro de casa nos lembram de algo
desconfortavelmente humano: ninguém está tão no controle assim.
Nem da agenda.
Nem da casa.
Nem da própria cabeça.
E talvez por isso a gente se irrite tanto. Não é pela chave. Não é pelo
carregador. Não é pelo controle remoto.
É porque, por alguns minutos, aquele objeto minúsculo denuncia tudo: nosso
cansaço, nossa pressa, nossa distração, nossa mania ridícula de achar que
damos conta de tudo.
Aí a chave aparece.
A gente respira.
Sai atrasado.
E promete, com a convicção dos grandes mentirosos domésticos:
— Agora vou deixar sempre no mesmo lugar.
Claro que vai.
Assim como todo mundo vai começar a organizar a vida no domingo à noite, a
dieta na segunda-feira e nunca mais guardar potes sem tampa.
A humanidade é comovente.
E profundamente desorganizada.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)






























