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Só cinco minutinhos no celular

(E outras mentiras que contamos a nós mesmos antes de perder três horas da vida)

Existe uma categoria muito especial de mentira: aquela que a gente conta para si mesmo com
a convicção de quem ainda acredita que tem algum domínio sobre a própria vida.
“Só vou olhar cinco minutinhos o celular.”
Cinco minutinhos.
A frase sai limpa, inocente, quase responsável. Parece coisa de gente adulta, equilibrada, com
agenda organizada e domínio emocional. Uma pessoa que apenas vai conferir uma notificação,
responder algo importante e voltar para a vida real.
Mentira.
A vida real, nesse momento, já perdeu.
Você começa apenas vendo uma mensagem.
Aí aparece um vídeo de receita.
Depois um cachorro muito educado pedindo comida.
Depois uma mulher explicando por que você está lavando o rosto errado desde que nasceu.
Quando percebe, já se passaram três horas, você sabe a rotina de skincare de uma mulher da
Eslováquia, entendeu superficialmente um conflito entre influenciadores que não conhece, viu
uma reforma completa de banheiro em Portugal e não faz a menor ideia de onde largou sua
dignidade.
Ela provavelmente caiu entre um vídeo de “arrume-se comigo” e outro de “hábitos que estão
destruindo sua vida”.
O pior é que essa não é a única mentira que a gente conta antes de perder tempo, rumo, sono
e um pouco da fé na própria capacidade de escolha.
Tem também o clássico:
“Vou só deitar um pouquinho.”
Essa frase deveria vir com termo de responsabilidade. Porque ninguém “deita um pouquinho”.
A pessoa deita às 18h30 para descansar os olhos e acorda às 21h58 sem saber se ainda é hoje,
se perdeu o emprego, se tem filho, se está viva ou se foi abduzida por uma entidade
especializada em cochilos desastrosos.
Há também o famoso:
“Só mais um episódio.”
Essa é uma das mentiras mais perigosas da vida adulta, principalmente quando dita às 23h por
alguém que precisa acordar cedo. O episódio termina com um gancho dramático, a plataforma
já coloca a contagem regressiva de cinco segundos, e você, ser humano frágil e sem qualquer
autoridade sobre a própria existência, deixa tocar.

Porque aparentemente levantar para escovar os dentes é impossível, mas assistir mais 52
minutos de uma série documental sobre a rivalidade entre criadores profissionais de alpacas
no interior do Canadá é perfeitamente razoável.
Outra mentira sofisticada:
“Vou ver os comentários rapidinho.”
Não vai.
Você sabe que não vai.
Os comentários são uma cratera. Você entra apenas para saber a opinião das pessoas e sai
trinta minutos depois com menos fé na humanidade, mais tensão no maxilar e uma vontade
sincera de morar numa cabana sem internet, onde o máximo de conflito social seja uma
galinha atravessando seu caminho com olhar de julgamento.
E ainda tem:
“Vou começar segunda.”
Segunda-feira virou depósito universal de promessas falidas. Dieta, exercício, leitura,
organização, rotina de sono, planejamento financeiro, vida nova, alma nova, lombar nova.
Tudo vai começar segunda.
A segunda, coitada, já nasce sobrecarregada. Nem chegou e já tem que carregar todos os
fracassos administrativos da semana anterior. Uma injustiça trabalhista contra um dia da
semana, se quisermos ser técnicos.
Mas a grande estrela do autoengano moderno continua sendo o celular.
O celular não prende ninguém com correntes. Seria até mais honesto. Ele prende com
migalhas de dopamina embaladas em vídeos curtos, notificações, fofocas, tutoriais, memes,
tragédias, dancinhas, receitas e pessoas ensinando a organizar uma gaveta como se aquilo
fosse curar sua alma.
E a gente cai.
Cai bonito.
Cai com os dois pés, de pijama, cabelo amassado e a promessa interna de que “agora é o
último”.
Mas nunca é o último.
Sempre existe mais um vídeo.
Mais uma fofoca.
Mais uma recomendação absurda.
Mais uma pessoa dizendo: “Você sabia que se você sente vontade de sumir toda quarta-feira,
isso pode ser um sinal de…”
Meus queridos, às vezes é só quarta-feira mesmo.
A tragédia moderna é que a gente não usa o celular apenas para se informar. Usa para fugir.
Para adiar banho, sono, louça, mensagem difícil, pensamento incômodo, boleto, silêncio e
aquela conversa interna que começa com “o que eu estou fazendo da minha vida?”.

Então a gente rola a tela.
Porque rolar a tela é mais fácil do que encarar a própria existência. Infelizmente, ela continua
lá. Sentada no canto, de braços cruzados, esperando você terminar de assistir ao tutorial de
como dobrar lençol de elástico.
E existe ainda uma humilhação específica: perceber que você está cansado demais para ler
duas páginas de um livro, mas perfeitamente disposto a consumir 37 vídeos seguidos sobre
uma desconhecida montando marmitas para a semana.
O cérebro humano, esse projeto claramente entregue antes do prazo, consegue alegar
exaustão para qualquer coisa útil, mas encontra energia para investigar se aquele casal da
internet terminou ou se era apenas estratégia de engajamento.
E depois vem a culpa.
Aquela culpa silenciosa, rasteira, que aparece quando você olha o relógio e pensa:
“Meu Deus, eu podia ter dormido.”
Podia.
Também podia ter tomado água, dobrado roupa, respondido sua amiga, feito alongamento,
lido um capítulo, organizado a vida, meditado, virado uma pessoa melhor.
Mas não.
Você viu um homem limpando tapete com uma máquina industrial e sentiu paz.
E talvez seja exatamente esse o ponto mais ridículo e mais humano da coisa: a gente está
exausto. Saturado. Cheio de demandas, cobranças, ruídos, urgências e pequenos colapsos
empilhados. O celular vira uma anestesia portátil. Uma fuga pequena. Um esconderijo com
bateria.
Só que, como toda anestesia, ela cobra depois.
Cobra sono.
Cobra presença.
Cobra tempo.
Cobra aquela sensação estranha de ter passado horas ocupado sem ter vivido exatamente
nada.
No fim, talvez o problema seja mentir para nós mesmos com frases tão ruins, tão previsíveis,
tão desmoralizadas pela prática, que nem nosso cérebro deveria aceitar mais.
Mas aceita.
Todo dia.
A tela acende, a promessa vem:
“Só cinco minutinhos.”
E lá vamos nós, mariposas com Wi-Fi, voando direto para a luz azul da nossa própria falta de
vergonha.
Amanhã a gente melhora.

Provavelmente segunda-feira.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer verdades que
muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração,

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