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O INVERNO JÁ PASSOU DO PRAZO

(Ou: a estação que ninguém teve coragem de mandar embora)

Eu não quero parecer intolerante, mas o inverno já deveria ter ido embora há
uns três meses.
Não me interessa o que diz o calendário, o movimento de translação da Terra
ou qualquer argumento científico que envolva inclinação do eixo terrestre. A
humanidade já conseguiu colocar gente na Lua, editar genes e inventar uma
geladeira que avisa quando acabou o leite. Certamente alguém poderia
resolver setembro ainda estar frio.
O inverno é uma estação que não sabe a hora de ir embora.
No começo até tem seu charme. Casacos, café quente, cobertores, aquela
breve fantasia estética de que todos vamos atravessar a estação
elegantemente vestidos como personagens de um filme europeu.
Dura aproximadamente quatro dias.
Depois disso, sobra apenas uma população cansada tentando realizar
atividades básicas enquanto perde a sensibilidade dos dedos.
Levantar da cama já exige negociação diplomática.
Você abre um olho.
Está escuro.
Coloca um pé para fora do cobertor.
O pé imediatamente envia ao cérebro a informação:
“Abortar missão.”
Mas somos adultos. Temos boletos. Então levantamos.
Essa é uma das maiores injustiças da vida adulta: ninguém suspende o
expediente porque está 8 graus e sua alma decidiu permanecer debaixo do
edredom.
Depois vem o banho.
Entrar no banho quente é maravilhoso. Talvez o único momento
verdadeiramente feliz do inverno.
O problema é sair.
Existe algo profundamente desumano em desligar o chuveiro sabendo
exatamente o que espera do outro lado.

Você fica alguns segundos parado, molhado, encarando a toalha.
Calculando.
Negociando.
Talvez seja possível morar ali.
Talvez eu possa trabalhar remotamente de dentro do box.
Mas não.
É preciso abrir o box.
E então vem aquele vento gelado que atravessa o banheiro e toca sua pele
como uma cobrança judicial.
Não existe toalha rápida o suficiente.
Depois começa a etapa de se vestir.
Blusa térmica.
Outra blusa.
Moletom.
Casaco.
Legging.
Calça.
Meia.
Outra meia.
Cachecol.
Luvas.
Bota.
Eventualmente você percebe que está usando roupas suficientes para
sobreviver a uma pequena expedição ao Himalaia, mas precisa apenas ir
trabalhar.
O problema das camadas é que chega um momento em que você deixa de ser
uma pessoa e vira um estofado.
Os braços não dobram direito.
O pescoço desaparece.
Você anda com a mobilidade de quem foi embalado para transporte.

E ainda sente frio.
Essa é a parte ofensiva.
Se vou vestir metade do guarda-roupa, o mínimo que espero é atingir
temperatura corporal compatível com a vida.
Mas não.
O frio encontra uma fresta.
Sempre encontra.
Então chego ao trabalho e encontro o aquecedor.
Nosso aquecedor já não aquece.
Ele participa.
Faz um barulho.
Acende uma luz.
Produz alguma coisa que, juridicamente, talvez ainda possa ser chamada de
calor.
É um aparelho antigo, cansado, provavelmente com memórias da
administração passada e claramente pedindo eutanásia.
A gente liga.
Ele geme.
Nós gememos.
E seguimos todos juntos porque aparentemente ninguém naquele ambiente
teve coragem de encerrar esse sofrimento.
Nesse ponto do inverno, já não quero chocolate quente, fondue, vinho, pinhão,
cobertor felpudo ou fotografia de casal abraçado usando touca.
Quero calor.
Quero abrir uma janela sem receber uma agressão meteorológica.
Quero sair do banho sem precisar executar uma operação militar.
Quero usar uma única camiseta.
Uma.
Existe uma simplicidade quase espiritual em vestir uma camiseta e sair de
casa.

Mas principalmente eu queria que os seres humanos tivessem mantido uma
característica perfeitamente razoável de outros mamíferos:
hibernação.
O urso entendeu tudo.
Chega o frio e ele simplesmente desaparece.
Não enfrenta segunda-feira.
Não precisa sair de casa tremendo enquanto espera o carro finalmente ficar
minimamente habitável.
Não precisa decidir entre sair da cama ou preservar a circulação sanguínea.
Come bastante, encontra um canto confortável e informa ao mundo:
“Voltamos na primavera.”
Isso não é preguiça.
É evolução.
Nós é que pegamos o caminho errado.
Criamos relógio-ponto.
Então, se alguém estiver procurando por mim no próximo inverno, gostaria de
deixar registrado antecipadamente:
estarei indisponível de junho a setembro.
Favor não ligar.
Não insistir.
Não bater na porta.
Deixem apenas um cobertor adicional e alguma comida próxima à entrada.
Na primavera eu apareço.
Provavelmente mal-humorada.
Mas descongelada.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com

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