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ANTES DO PRIMEIRO TAPA

(A violência nem sempre deixa hematomas. Às vezes, deixa uma mulher que já não reconhece a própria voz.)

Quando se fala em violência contra a mulher, muita gente ainda imagina uma
cena específica.
Um homem enfurecido.
Uma mulher machucada.
Uma porta batendo.
Uma viatura chegando.
Como se a violência começasse apenas quando alguém levanta a mão.
Mas, antes do primeiro tapa, muitas outras coisas podem ter acontecido.
Talvez ele tenha começado criticando a roupa dela.
Depois, os amigos.
A família.
O trabalho.
O jeito como ela fala, ri, pensa, gasta dinheiro ou ocupa espaço.
Talvez tenha pedido a senha do celular como prova de amor. Questionado cada
mensagem. Controlado horários. Implicado com colegas. Feito cenas quando
ela tentou sair sozinha.
Talvez tenha dito que era ciúme porque amava demais.
A humanidade possui um talento preocupante para dar nomes românticos ao
controle.
Quando ela reclama, ele diz que é exagero. Quando chora, chama de
desequilibrada. Quando tenta se defender, afirma que ela é agressiva. Aos
poucos, ela passa a desconfiar da própria memória, do próprio julgamento e
até do direito de se sentir ferida.
Não há hematoma.
Mas há violência.
A violência psicológica humilha, ameaça, manipula, persegue, isola e diminui.
Faz a mulher medir palavras, roupas, gestos e respirações para evitar uma
reação. Ela começa a viver como quem caminha por uma casa cheia de
alarmes invisíveis.
Também existe a violência moral, quando surgem os insultos, as acusações, a
difamação e a destruição da reputação. O agressor não precisa quebrar o
corpo quando consegue quebrar a imagem que a mulher tem de si e a que os
outros têm dela.

Existe a violência patrimonial.
Ela aparece quando alguém controla o dinheiro, esconde documentos, toma o
salário, destrói objetos, impede a mulher de trabalhar ou a mantém dependente
para que sair pareça impossível.
Existe a violência sexual.
Ela também pode acontecer dentro de um casamento ou relacionamento.
Consentimento não é um contrato vitalício assinado no primeiro encontro.
Insistência, chantagem, ameaça, constrangimento e imposição não se
transformam em desejo apenas porque o agressor é marido, namorado ou
companheiro.
Existe a violência física.
O empurrão tratado como “perda de controle”. O braço apertado. O objeto
arremessado. O soco na parede ao lado do rosto. O tapa seguido da frase
clássica de quem agride e, com uma eficiência quase industrial, terceiriza a
própria culpa:
— Olha o que você me fez fazer.
E existe ainda a violência vicária, praticada quando filhos, familiares,
dependentes, animais ou pessoas da rede de apoio são ameaçados ou
atingidos como forma de ferir e controlar a mulher.
A mensagem é simples e cruel: “Posso alcançar tudo o que você ama.”
Essas violências raramente aparecem organizadas em categorias,
educadamente separadas para facilitar nossa compreensão. Elas se misturam.
Crescem. Adaptam-se.
E, em muitas relações, repetem um padrão conhecido como ciclo da violência.
Primeiro, vem o aumento da tensão.
O ambiente muda. O agressor se irrita com qualquer coisa. Surgem críticas,
ameaças, humilhações e explosões menores. A mulher percebe o risco e tenta
impedir que algo pior aconteça.
Fala mais baixo.
Evita determinados assuntos.
Afasta-se das pessoas.
Muda o próprio comportamento.
Não porque seja fraca, mas porque está tentando sobreviver dentro de uma
realidade imprevisível.
Depois, acontece a agressão.
Pode ser física, psicológica, sexual, moral, patrimonial ou atingir pessoas
importantes para ela. A tensão acumulada se transforma em violência aberta.
Em seguida, chega o arrependimento.

O pedido de desculpas.
O choro.
As flores.
As promessas.
Ele diz que vai procurar ajuda, parar de beber, controlar o ciúme, mudar de
verdade. Volta a ser carinhoso. A mulher se lembra de quem ele foi, ou de
quem ainda espera que ele possa ser.
Por algum tempo, tudo parece tranquilo.
Até a tensão começar novamente.
O problema não é apenas a repetição.
É que o ciclo pode se tornar cada vez mais rápido e mais grave. A fase
tranquila diminui. As agressões aumentam. O medo passa a morar na rotina.
Por isso, perguntar “por que ela não vai embora?” é uma pergunta simplista
diante de uma realidade complexa.
Talvez ela tenha medo de morrer.
Talvez ele tenha ameaçado os filhos.
Talvez não tenha renda, casa ou rede de apoio.
Talvez esteja emocionalmente destruída depois de anos ouvindo que não
consegue viver sem ele.
Talvez já tenha tentado sair e tenha sido perseguida.
Talvez ainda acredite nas promessas.
Talvez esteja preparando a saída em silêncio, porque sabe que o momento da
separação pode aumentar o risco.
Sair de uma relação violenta não é apenas fazer uma mala e fechar uma porta.
Em alguns casos, é uma operação de sobrevivência.
O Agosto Lilás existe para lembrar que a violência contra a mulher não é um
problema privado a ser escondido atrás das paredes de uma casa. É uma
violação de direitos humanos e uma responsabilidade coletiva.
Não basta dizer que a mulher precisa denunciar.
É preciso que ela encontre alguém disposto a acreditar.
Uma família que não a mande voltar para “preservar o casamento”.
Uma amiga que não diga que todo casal briga.
Um serviço que não a faça repetir sua dor diante de cinco pessoas diferentes.
Uma sociedade que pare de exigir da vítima uma conduta perfeita enquanto
oferece ao agressor um catálogo inteiro de desculpas.
Buscar ajuda não significa que a mulher precise decidir tudo imediatamente.
Ela pode procurar orientação, conhecer seus direitos, avaliar riscos e construir
uma saída possível. Pode buscar uma Delegacia de Polícia, o CREAS, os

serviços de saúde, a Defensoria Pública, o Ministério Público ou outros
equipamentos da rede de proteção de seu município.
O Ligue 180 funciona gratuitamente, durante 24 horas, e também atende pelo
WhatsApp no número (61) 9610-0180. Em Santa Catarina, denúncias podem
ser feitas pelo 181 ou pelo WhatsApp e Telegram (48) 98844-0083. Em
situações de emergência ou risco imediato, deve-se acionar a Polícia Militar
pelo 190.
A própria mulher pode pedir ajuda.
Um familiar pode.
Um vizinho pode.
Uma amiga pode.
Porque o silêncio nunca foi neutro.
Para quem agride, ele funciona como proteção.
Para quem sofre, como mais uma parede.
Agosto veste lilás para tornar visível aquilo que tantas mulheres foram
ensinadas a esconder.
Mas reconhecer a violência é apenas o começo.
Romper o ciclo exige informação, proteção, rede de apoio e responsabilidade.
O pedido de desculpas pode ser sincero naquele instante.
A promessa pode até parecer diferente.
Mas mudança não é aquilo que alguém diz depois de machucar.
Mudança é o padrão que deixa de se repetir.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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