Existe um tipo específico de constrangimento que só acontece em lugares muito estratégicos
da vida adulta: padaria, farmácia e fila de banco. Mas o mercado tem um requinte especial de
crueldade, porque mistura necessidade básica, iluminação branca demais e a chance real de
você estar segurando um pacote de absorvente noturno com abas justamente quando alguém
conhecido aparece sorrindo.
Você entra achando que será rápido. Que ingenuidade. Você só precisa comprar pão, leite,
papel higiênico e, se der tempo, fingir que vai começar uma vida mais saudável pegando uma
alface que vai morrer lentamente na gaveta da geladeira.
Plano simples. Missão objetiva. Humanidade em modo econômico.
Até que, entre o papel higiênico e o absorvente, alguém diz:
— Sarah!
E pronto.
O corpo congela. A alma faz logout. O cérebro abre quinze abas ao mesmo tempo, todas
travando, como um Windows 98.
Você vira devagar, com aquele sorriso social que não nasce no coração, nasce no desespero. A
pessoa vem feliz, íntima, iluminada por uma certeza ofensiva: ela sabe exatamente quem você
é.
Pior: ela sabe onde você trabalha.
Pior ainda: ela pergunta da sua mãe.
— E sua mãe, melhorou da perna?
E você ali, segurando o absorvente, pensando: “Quem é essa criatura e por que ela sabe da
articulação materna?”
Porque esse é o verdadeiro terror. Não é só encontrar alguém conhecido. É encontrar alguém
que te conhece muito melhor do que você conhece ela. A pessoa lembra seu nome, seu
trabalho, sua mãe, talvez até o nome do seu cachorro.
Enquanto isso, você tenta desesperadamente identificar se ela é parente distante, vizinha, ex-
colega antiga de serviço, amiga da tua tia, ex-colega de escola, alguém da igreja da sua mãe ou
uma entidade social invocada pelo corredor do mercado.
E aí começa o grande espetáculo brasileiro: o malabarismo sem nome.
— Menina, quanto tempo.
Você responde:
— Pois é! Faz tempo mesmo.
Genial. Neutro. Seguro. Não compromete. Um clássico da sobrevivência civilizada.
A pessoa continua:
— Você lembra de mim, né?
Pergunta criminosa. Deveria estar no Código Penal, junto com ligação de vídeo sem aviso
prévio.
Você ri.
— Claro, claro!
Mentira. Um pecado social básico. Necessário para a sobrevivência humana. Autodefesa.
A partir daí, você entra num jogo mental digno de Olimpíada. Precisa manter a conversa sem
usar nome nenhum. Nem um “querida” muito íntimo, nem um “moça” muito distante. Você
fica num limbo emocional.
— E como vocês estão?
“Vocês” é uma obra-prima. Serve para família, trabalho, casamento, cachorro, grupo de zumba
e seita. Perfeito. Uma pergunta só, múltiplas possibilidades. A língua portuguesa também tem
seus momentos de misericórdia.
Mas a pessoa não ajuda. Claro que não. Porque o universo gosta de rir da nossa cara enquanto
a gente tenta manter a diplomacia.
— Lá no teu trabalho ainda está corrido?
Vish, agora ferrou.
Você entra no modo profissional genérico:
— Sabe como é… A gente vai levando.
“A gente vai levando” é outra frase perfeita. Não diz nada, mas soa profunda. Serve para
trabalho, saúde mental, política municipal, casamento em crise e preço do queijo.
Enquanto isso, você analisa a pessoa como se fosse perícia técnica. O cabelo parece familiar. A
voz também. O jeito de inclinar a cabeça talvez seja de alguém que frequentava sua casa em
2007. Ou de alguém que você atendeu uma vez em 2019. Ou de uma prima de alguém que
você bloqueou emocionalmente, como toda pessoa funcional precisa fazer para não explodir
com excesso de informações desnecessárias. Porque até a memória RAM do nosso cérebro
tem limite.
E tem sempre o carrinho denunciando sua intimidade. Porque encontrar alguém no mercado é
constrangedor também porque suas compras contam histórias.
Pão, café e papel higiênico dizem: “sou adulta, cansada e vulnerável”.
Absorvente, dipirona e chocolate dizem: “não mexe comigo nos próximos quatro dias”.
Alface, iogurte natural e peito de frango dizem: “estou tentando ser uma nova pessoa desde
segunda-feira”.
Dois vinhos, queijo e vela aromática dizem: “não pergunte”.
E a pessoa olha. Todo mundo olha. Finge que não, mas olha. O mercado é uma rede social com
carrinho.
A conversa segue. Você já aceitou que não sabe quem é. Agora o objetivo não é lembrar. É
escapar sem ser descoberto. Então você usa técnicas avançadas de camuflagem social.
Sorri.
Inclina a cabeça.
Faz expressão de reconhecimento profundo.
De repente, ela solta:
— A Ana Paula tá diferente, né?
A pessoa fala algo sobre alguém que casou, alguém que separou, alguém que está “bem
diferente”. Você concorda com tudo, porque contrariar desconhecido íntimo em mercado dá
azar.
— Sim, mudou bastante mesmo.
Quem mudou? Não sabemos. Mas a gente concorda assim mesmo. A vida é assim: confusa,
imprevisível, difícil, como abrir a tampa do iogurte sem rasgar.
Aí quando ela diz:
— Manda um beijo pra tua mãe.
E você responde:
— Pode deixar!
Pode deixar em nome de quem? Da desconhecida conhecida que me encontrou no mercado?
Aí vem o golpe final:
— Depois aparece lá em casa!
Você sorri com a serenidade de quem jamais aparecerá porque nem sabe onde “lá” fica.
— Apareço sim!
Outra mentira fundadora da civilização. Se todas as pessoas que disseram “vamos marcar”
realmente marcassem de fato, o país parava.
Então, finalmente, a pessoa se despede. Você acena. Espera ela virar no final do corredor.
Respira. Olha para o carrinho. Olha para o absorvente. O absorvente olha de volta, te julgando.
E só depois, geralmente na fila do caixa, o cérebro decide colaborar.
“Meu Deus. Era a filha da vizinha da minha tia.”
Ou:
“Era alguém que trabalhou comigo em 2015.”
Aí você precisa decidir se finge que lembrou desde o início ou se leva esse segredo para o
túmulo, junto com outras vergonhas pequenas que formam o mosaico ridículo da existência
humana.
No fim, encontrar um conhecido desconhecido no mercado é isso: uma prova de improviso,
memória falha, um pouquinho de teatro social e controle facial. Você entra para fazer compras
e sai tendo interpretado uma versão socialmente aceitável de si mesma, sem nomear a
pessoa, sem revelar o pânico e sem deixar cair o absorvente no chão.
E talvez seja essa a verdadeira maturidade: não saber quem é a pessoa, mas ainda assim
perguntar:
— E vocês, tudo bem?
Porque viver em sociedade exige gentileza, mentiras leves e reflexo rápido.
Principalmente entre o absorvente e o papel higiênico.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer verdades que
muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

























