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POR QUE FAZER HOJE O QUE SE PODE DEIXAR PARA DEPOIS DE AMANHÃ?

(Entre a culpa, os prazos e o mito cruel de que nosso “eu do futuro” será mais organizado do que nós.)

Procrastinar não é simplesmente ter preguiça.
Preguiça, em geral, é a vontade honesta de não fazer nada. Uma entrega
quase filosófica ao repouso. A pessoa deita, aceita, contempla o teto e talvez
até alcance algum tipo de paz espiritual. Bonito, quase budista. Ou só cansado
mesmo. Também serve.
A procrastinação, não.
A procrastinação é barulhenta por dentro. A pessoa não faz, mas também não
descansa. Ela lava a louça, organiza gavetas, responde mensagens antigas,
pesquisa a vida de um ator secundário de uma série de 2007, tudo para evitar
aquilo que realmente precisa fazer. E enquanto evita, sofre.
Um espetáculo completo. Circo interno, palhaço cansado e plateia julgando.
Psicologicamente, muitas vezes a procrastinação não nasce da falta de caráter,
como adoram sugerir os fiscais da produtividade. Ela pode nascer do medo de
errar, da sensação de incapacidade, do perfeccionismo, da ansiedade, da
exaustão emocional ou da dificuldade de lidar com tarefas que parecem
grandes demais.
Às vezes, o problema não é começar. É encarar o peso simbólico daquilo.
Porque algumas tarefas não são só tarefas. Escrever um relatório pode
significar enfrentar insegurança. Fazer uma ligação pode significar lidar com
conflito. Organizar documentos pode significar encarar a própria vida adulta,
essa instituição que ninguém teve a decência de cancelar. Começar uma dieta
pode significar mexer com autoestima. Mandar um currículo pode significar
lidar com rejeição. Tomar uma decisão pode significar assumir uma
consequência.
E aí o cérebro, esse gerente caótico de repartição pública, decide:
“Melhor deixar para depois.”
E ainda tenta vender isso como estratégia.
Existe uma lógica muito própria na procrastinação: o nosso eu presente,
cansado, sobrecarregado e absolutamente sem condições emocionais de lidar
com a tarefa, olha para a obrigação e pensa:
“Isso parece um problema para o meu eu do futuro.”

E pronto. Está feita a transferência de responsabilidade entre departamentos
internos.
O eu de hoje empurra a missão para o eu de amanhã com a tranquilidade de
quem encaminha um e-mail com “segue para providências”. Como se o eu do
futuro fosse uma entidade mais madura, organizada, emocionalmente regulada
e com uma planilha impecável da vida.
Coitado.
Procrastinar é acreditar, com uma fé quase religiosa, que nosso eu do futuro
será uma pessoa melhor. Mais disposta. Mais lúcida. Mais eficiente. Uma
criatura evoluída que acordará cedo, beberá água, abrirá o computador e
resolverá tudo com serenidade.
A realidade, infelizmente, gosta de humilhar nossas fantasias.
O eu do futuro não chega iluminado. Chega atrasado.
Chega com a mesma cabeça, o mesmo corpo, os mesmos medos e uma pilha
maior de coisas acumuladas. Porque o tempo, esse agiota invisível, não
perdoa. Ele aceita adiamentos, claro. Mas cobra juros.
A versão futura costuma ser exatamente a mesma pessoa. Só que mais
cansada, mais irritada, com menos prazo e uma vontade muito justa de
processar o “eu do passado” por abandono de função.
E é aí que a culpa entra em cena.
Não como um lembrete discreto, claro. Nada nessa vida adulta tem essa
delicadeza. A culpa chega como uma visita inconveniente que entra sem bater,
senta no sofá e começa a comentar nossas escolhas.
A culpa da procrastinação é curiosa: ela não resolve nada, mas consome
energia suficiente para impedir que a pessoa resolva. É como carregar uma
mochila cheia de pedras enquanto alguém grita: “Anda mais rápido!”.
Muito útil.
Parabéns aos envolvidos.

O mais cruel é que a procrastinação cria um ciclo. A pessoa adia porque está
ansiosa. Depois fica mais ansiosa porque adiou. A ansiedade aumenta, a tarefa
parece maior, o prazo encurta, a culpa cresce e, quando percebe, aquilo que
era uma obrigação simples virou uma entidade mitológica habitando a agenda.
Vivemos numa sociedade viciada em prazo. Tudo tem hora, meta, cobrança,
entrega, produtividade, desempenho. Acordar cedo, trabalhar bem, cuidar da
casa, cuidar do corpo, responder todo mundo, planejar o futuro, ter saúde

mental, beber água, dormir oito horas, economizar dinheiro, fazer exercício, ser
sociável, não surtar e ainda parecer grato.
Tudo isso antes das 18h, se possível.
Quando não conseguimos acompanhar esse ritmo absurdo, a procrastinação
pode aparecer como uma tentativa torta de recuperar algum controle. A pessoa
não decide exatamente descansar. Decide adiar. E isso é bem diferente.
Descanso de verdade restaura. Procrastinação, muitas vezes, esgota.
Porque no descanso há pausa. Na procrastinação há negociação interna. A
pessoa não está em paz. Está apenas fugindo da tarefa enquanto carrega a
tarefa nas costas, como uma mochila fedida de escola que ninguém pediu para
reviver.
E então vem o famoso:
“Eu trabalho melhor sob pressão.”
Será mesmo?
Ou será que a pressão apenas ficou tão insuportável que finalmente empurrou
a pessoa para a ação? Nem sempre produzir no limite significa funcionar bem.
Às vezes significa apenas sobreviver ao próprio incêndio interno com um balde
furado na mão.
Claro, nem toda procrastinação é profunda. Às vezes a gente só não quer
mesmo. E tudo bem. Nem toda resistência precisa virar tese psicanalítica. Há
dias em que o corpo pede pausa, a mente pede silêncio e a alma pede para
não preencher mais nenhum formulário.
O problema é quando a vida inteira vira adiamento.
Quando o “depois” se transforma num depósito onde jogamos sonhos,
conversas difíceis, cuidados pessoais, decisões importantes e partes inteiras
de nós. Quando deixamos para o eu do futuro não apenas uma tarefa atrasada,
mas uma vida que o eu presente não teve coragem de tocar.
Porque adiar uma obrigação é uma coisa.
Adiar a própria vida é outra.

Talvez o caminho não seja se humilhar internamente até produzir. Essa técnica,
além de péssima, tem o charme emocional de um boleto vencido. Talvez seja
mais útil perguntar:
“O que exatamente estou evitando sentir quando evito fazer isso?”
Medo? Frustração? Tédio? Insegurança? Cansaço? Raiva? Perfeccionismo?

Às vezes, nomear o que está por trás já diminui o monstro. Ele continua feio,
claro. Mas pelo menos deixa de parecer invencível.
Também ajuda quebrar a tarefa em partes menores. O cérebro adora
transformar “organizar um documento” em “resolver toda a existência humana
até sexta-feira”. Então talvez o primeiro passo seja apenas abrir o arquivo. Só
isso. Sem drama, sem trilha sonora épica, sem promessa de virar uma nova
pessoa.
Abrir o arquivo já é começar.
Responder uma mensagem já é começar.
Separar o documento já é começar.
Escrever uma frase ruim já é começar.
E começar, apesar de todo o marketing motivacional insuportável em torno
disso, ainda é melhor do que ficar negociando com a própria culpa no escuro.

No fim, procrastinar é humano. O problema é quando começamos a confundir
adiamento com descanso, autocobrança com responsabilidade e culpa com
consciência.
Talvez a pergunta não seja apenas “por que não fiz ainda?”, mas “por que
estou deixando isso para uma versão minha que também vai estar cansada?”.
Porque o eu do futuro não é um funcionário terceirizado da nossa existência.
É a gente mesmo.
Só que com menos prazo, mais olheira e um leve rancor acumulado.

Então, se há algo que precisa ser feito, talvez não precise ser tudo hoje. Mas
talvez precise ser um pouco hoje. Um gesto mínimo. Uma fresta. Um começo
torto, imperfeito, humano.
Porque deixar tudo para depois de amanhã pode até parecer uma filosofia
charmosa.
Mas depois de amanhã também chega.
E geralmente chega fazendo cobrança.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer verdades que muita gente prefere evitar.

Contato: sahbruning@gmail.com

Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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