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A OLIMPÍADA DO SOFRIMENTO

(Sobre pessoas que não conseguem ouvir uma reclamação sem subir no pódio da desgraça)

Existe um tipo de pessoa que não conversa. Compete.
Você diz, inocentemente, quase como um suspiro derrotado:
— Hoje estou cansado.
E a pessoa imediatamente ergue a tocha olímpica da exaustão:
— Cansado? Eu dormi apenas três horas, limpei a casa, fiz almoço, trabalhei, resolvi burocracia
de banco, cuido da minha mãe idosa, crio sete filhos, bati massa de pão e ainda tirei uma selfie
sorrindo e mandei no grupo da família.
Parabéns.
Medalha de ouro no sofrimento sincronizado.
Ou você comenta:
— Nossa, que dor de cabeça.
A pessoa imediatamente se transforma em um moribundo ambulante:
— Dor de cabeça? Eu tenho enxaqueca desde 1998, minha nuca trava, meu olho pulsa, minha
alma formiga e ontem achei que ia ver Nossa Senhora no corredor.
Pronto.
Sua dor de cabeça, que até então era legítima, foi rebaixada a uma leve frescura craniana.
A gente não sabe se responde “meus sentimentos” ou se aplaude de pé essa atleta do colapso
funcional. Porque, aparentemente, sentir cansaço virou uma categoria competitiva. E, como
em toda competição, sempre aparece alguém disposto a provar que sofre mais, dorme menos,
trabalha mais, adoece melhor e carrega uma cruz mais pesada, talvez com glitter, porque até o
martírio precisa de estética fashion.
E não importa o assunto. Sempre haverá uma versão pior, maior, mais dramática e, claro,
pertencente à pessoa que está ouvindo. Ou melhor: que deveria estar ouvindo. Porque esse é
o detalhe triste, escondido debaixo da comédia: essas pessoas não escutam para acolher.
Escutam esperando a deixa para apresentar o próprio espetáculo.
Você diz que teve uma semana difícil.
Ela teve um mês impossível.
Você diz que está ansiosa.
Ela nasceu ansiosa, cresceu ansiosa, casou ansiosa, criou filhos ansiosa e provavelmente
pretende ser enterrada com taquicardia.
Você diz que está sobrecarregada.
Ela carrega o mundo nas costas, quatro sacolas de mercado em cada mão e ainda acha tempo
para lembrar que ninguém valoriza seus esforços.
É quase bonito, se não fosse insuportável.

A competição de sofrimento costuma vir disfarçada de desabafo, mas tem cheiro de
invalidação. A pessoa não diz diretamente: “sua dor não importa”. Ela apenas empilha a
própria dor em cima da sua até a sua desaparecer sufocada embaixo de uma montanha de
tragédias comparativas.
E aí você se sente ridículo por ter reclamado.
Como se só pudesse dizer que está cansado depois de atravessar um deserto, sobreviver a
nove boletos, vencer duas viroses e montar um guarda-roupa sem manual de instruções.
Mas sofrimento não é campeonato.
Não existe troféu para quem dormiu menos. Não existe faixa de miss exaustão. Ninguém
ganha um vale-descanso por provar que está pior do que todo mundo. E, sinceramente, se
existisse, teria fila, senha, tumulto e alguém dizendo que está esperando há mais tempo.
O curioso é que muitas dessas pessoas nem percebem o que fazem. Às vezes aprenderam que
afeto vem pela dor. Que só merece cuidado quem está no limite. Que descansar é fraqueza.
Que reclamar só é permitido se houver provas documentais, laudo médico, carimbo e
testemunhas oculares.
Então, quando alguém diz “estou cansado”, essas pessoas não conseguem apenas responder:
— Eu imagino. Quer conversar?
Não. Isso seria simples demais. E a humanidade tem horror ao simples. Precisa transformar
tudo em ranking, disputa, gincana emocional e campeonato municipal de quem está mais
destruído.
Mas talvez a gente pudesse tentar uma ideia revolucionária: deixar a dor do outro existir sem
precisar disputar espaço com a nossa.
Veja bem, você pode estar cansado e eu também.
Você pode estar triste e eu também.
Você pode ter tido um dia difícil sem que alguém precise abrir um currículo completo de
desgraças para provar que o dele foi pior.
Acolher não é perder protagonismo. Escutar não arranca pedaço. Validar a dor de alguém não
diminui a sua. Não é porque a outra pessoa tropeçou que você precisa aparecer mancando.
Às vezes, quando alguém reclama de cansaço, só está pedindo um pouco de humanidade. Um
“imagino”, um “deve ter sido pesado”, um “descansa um pouco”. Nada muito complexo. Não
precisa acionar a fanfarra do sofrimento nem subir no caixote para discursar sobre as 27
batalhas que você venceu antes das oito da manhã.
A vida já é suficientemente cansativa sem plateia disputando quem sangra mais bonito.
Então, da próxima vez que alguém disser “estou exausto”, talvez a resposta mais elegante não
seja:
— Você não sabe o que é cansaço.
Talvez seja:
— Eu sei como isso pesa.
E pronto.
Sem pódio. Sem medalha. Sem hino nacional da tragédia.

Porque, no fim das contas, todo mundo está tentando sobreviver a alguma coisa.
Alguns em silêncio.
Outros com dor de cabeça.
E alguns, infelizmente, narrando a própria epopeia doméstica como se estivessem
concorrendo ao Oscar de mártir do ano.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer verdades que
muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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