11 março 2026 - 6:03
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A ESTRANHA SENSAÇÃO DE SER UM ADULTO IMPROVISADO

(Descobrir que você não sabe o que está fazendo é assustador. Descobrir que ninguém sabe… é quase reconfortante.)

Quando eu era criança, eu tinha uma convicção absoluta sobre o mundo:

Os adultos sabiam exatamente o que estavam fazendo.

Eles dirigiam carros, pagavam contas, resolviam problemas, discutiam política na mesa do jantar como se entendessem tudo e ainda tinham tempo para dar conselhos sobre a vida.

Na minha cabeça infantil, existia um momento mágico em que a pessoa simplesmente virava adulta. Como se em algum ponto da vida alguém entregasse um manual invisível com todas as respostas. Um upgrade existencial.

Algo tipo:

“Parabéns, você desbloqueou a fase adulta.
Aqui estão suas certezas, sua maturidade emocional e sua habilidade de tomar decisões inteligentes.”

Hoje eu pago boletos.

Trabalho.

Tomo decisões que afetam outras pessoas.

Crio filho.

E, em alguns momentos muito específicos — geralmente enquanto tento resolver algum problema burocrático absurdo ou decidir se vale mais a pena consertar alguma coisa ou simplesmente fingir que ela não existe — eu paro e penso:

“Em que momento alguém decidiu que eu sabia o que estava fazendo?”

Porque a sensação real da vida adulta é bem menos elegante.

É a sensação de estar improvisando.

Você abre o aplicativo do banco, olha um valor, paga uma conta e pensa:

“Espero que isso esteja certo.”

Você marca uma consulta médica, escuta o médico explicar três coisas importantes, entende uma e meia, balança a cabeça com ar de adulto responsável e sai do consultório com uma receita, um exame para fazer e duas dúvidas existenciais.

Você cria um filho tentando equilibrar amor, paciência, limites, culpa, cansaço e um leve medo permanente de estar fazendo tudo errado.

Você participa de reuniões de trabalho onde todo mundo fala com uma segurança impressionante sobre coisas que ninguém ali domina completamente.

É um teatro curioso.

Todo mundo com cara de adulto responsável.

Todo mundo improvisando.

Aquele colega que parece extremamente seguro nas reuniões?
Provavelmente pesquisou no Google cinco minutos antes.

Aquele adulto que sempre parece ter uma resposta pronta?
Também está tentando não parecer perdido.

Aquele pai ou mãe que parece ter tudo sob controle?
Talvez esteja sobrevivendo à base de café, tentativa e erro e pequenas crises silenciosas no banheiro.

E talvez essa seja a maior revelação da vida adulta.

Não existe o momento em que alguém finalmente entende tudo.

Não existe o dia em que a gente acorda com sabedoria instalada e segurança absoluta nas decisões.

O que existe é prática.

Erro.

Mais prática.

Mais erro.

E um talento crescente para parecer funcional em público.

A grande ironia é perceber que os adultos da nossa infância provavelmente também estavam assim.

Pagando contas sem saber se iam dar conta do mês.

Tomando decisões importantes com um certo nível de medo.

Tentando educar filhos sem manual.

Fingindo que sabiam mais do que realmente sabiam.

E nós acreditamos.

Porque eles pareciam saber.

Talvez ser adulto seja exatamente isso.

Assumir responsabilidades grandes demais.

Tomar decisões sem garantia nenhuma.

E seguir em frente com a melhor cara de
“Eu sei o que estou fazendo”
que a gente consegue sustentar.

Mesmo quando, lá no fundo, a verdade é outra.

A verdade é que a maioria de nós ainda se sente, em algum nível, como um adolescente tentando não parecer perdido demais.

A diferença é que agora a gente tem senha de banco, imposto para pagar e alguém esperando que a gente resolva as coisas.

Plot twist da vida:

Os adultos nunca souberam exatamente o que estavam fazendo.

Eles só disfarçavam melhor.

Agora é a nossa vez de parecer que sabemos.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer verdades que muita gente prefere evitar.

Contato: sahbruning@gmail.com

Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

 

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