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O DIA EM QUE O MUNDO VIROU FANTASIA

(Ou a República do Confete)

Todo mundo acha que Carnaval começou porque brasileiro gosta de bagunça.
Mentira. (Ok, gosta também.)
Começou porque o ser humano precisa, de vez em quando, esquecer quem ele
é sem precisar pagar terapia.
Antes da Quaresma, lá na Europa medieval, o povo fazia festas para comer,
beber e dançar antes do período de jejum. Chamavam de carnevale — adeus à
carne. Despedida dos excessos.
Só que o excesso nunca foi só comida.
Era excesso de patrão explorando, de rei cobrando imposto, de casamento
infeliz, de vizinho fofoqueiro, de sogra controladora, de família que só funciona
se alguém for o bode expiatório oficial.
Carnaval virou licença coletiva para virar outra pessoa.
Rei vira mendigo.
Advogado vira pirata.
Professor vira unicórnio.
E até aquela mulher séria, de coturno e ironia afiada, vira gata gótica com
glitter nos olhos tentando esquecer que a vida cobra caro demais por existir.
E funciona.
Porque o mundo é pesado demais para ser vivido só de segunda a sexta…
pagando boleto.
A tradição vem lá de trás.
Das Saturnálias romanas, quando escravo mandava em patrão por um dia e
todo mundo fingia que o Império não estava ruindo.
Da Igreja medieval que institucionalizou a festa antes da Quaresma.
Aqui virou samba, marchinha, suor e multidão.
Virou o único feriado em que o brasileiro aceita sofrer no calor, espremido num
bloco… sorrindo.

As histórias que só o Carnaval inventa
Carnaval é um acordo coletivo de loucura.
Uma cidade proibiu fantasia de palhaço depois que foliões invadiram um
casamento achando que era bloco.
Pomerode, Santa Catarina, 2018.

Um prefeito caiu do trio elétrico tentando dançar funk aos 62 anos.
Limoeiro do Norte, Ceará, 2022.
Um turista japonês veio conhecer o samba tradicional e acabou preso porque
dormiu dentro de um carro alegórico achando que era hotel temático.
Rio de Janeiro, 2016.
E teve o Pikachu que roubou um ônibus… em 2020, em Florianópolis.
Dirigiu duas quadras, desceu e pediu desculpa.
Encerramos aqui porque nenhuma história supera um Pikachu educado
cometendo crime leve.
Carnaval é a única época em que essas frases fazem sentido.
Porque o resto do ano a gente tolera chefe ruim, salário apertado, sistema
falhando, gente invisível sofrendo em silêncio.
A gente engole muito.
No Carnaval, a gente cospe confete.
Dança pra não explodir.
Ri pra não chorar.
Se fantasia pra lembrar que não é só o papel que o mundo grudou na gente.
Quando chega a quarta-feira, o confete cai, a fatura do cartão aparece, lembra
quem manda… e a vida continua.
Mas a gente sobreviveu mais um ano.
E isso já é motivo de festa.
Então que venham mais Carnavais.
Mais histórias absurdas pra contar.
Mais dias em que o mundo vira fantasia e a gente lembra que viver ainda pode
ser leve.
Porque se até um Pikachu pode dirigir um ônibus…
a esperança ainda não morreu.

Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e foliã só até meia-noite
(porque alguém precisa acordar cedo pra manter o mundo funcionando.)
Contato: sahbruning@gmail.com Aceito propostas, críticas construtivas e
debates civilizados. Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração,
spam e coaches. (Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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