Eu avisei que voltaria.
E cá estou eu.
Porque não tinha como deixar passar o que as pessoas costumam chamar,
com uma coragem admirável, de “férias”.
Janeiro é ir pra praia e se queimar mesmo usando fator 90, ficando na sombra
e jurando que foi só “dez minutinhos no mar”.
Dez minutos suficientes pra voltar vermelho como camarão fervido.
As águas são tão geladas que fazem sentir frio em pleno verão de 35 °C,
enquanto a areia, essa traidora sem caráter, parece lava recém-saída do centro
da Terra. Um contraste térmico que não faz o menor sentido, mas a gente
aceita. Janeiro não pede coerência.
Passar um tempo com a família é bom.
De verdade.
Mas depois da segunda semana… parece que o mundo começa a ensaiar
discretamente a terceira guerra mundial.
Tudo começa com pequenas faíscas:
Quem vai fazer o almoço.
Quem vai lavar a louça.
Quem varreu a casa “mal varrida”.
Quem deixou o banheiro todo molhado e oficialmente inabitável.
E, claro, quem esqueceu a cueca furada no box, como se aquilo fosse uma
instalação artística chamada intimidade masculina em colapso.
Tem também as bebedeiras.
Sempre pelo menos dois bebem demais, falam demais e, inevitavelmente,
resolvem discutir pra ver quem tem razão sobre assuntos que ninguém lembra
como começaram.
E que, sinceramente, nem importam.
Enquanto isso, tu só queria terminar uma partida de Uno em paz e ir dormir.
Mas não.
Porque amanhã tudo se repete.
Café da manhã.
Praia.
Calor.
Frio no mar.
Pés queimando na areia.
Briga pro almoço.
Briga pós-almoço.
Soneca da tarde.
Mais praia.
E uma insolação estratégica pra fechar o dia com dignidade.
Janeiro é isso.
Um looping emocional entre afeto, irritação, risadas, pequenos ódios
passageiros e a estranha certeza de que, apesar de tudo, a gente vai sentir
falta.
Talvez não da louça.
Nem da areia-lava.
Nem da cueca no box.
Mas daquele caos específico que só a família consegue produzir…
E que, contra toda lógica, ainda chama de férias.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)


























