28 janeiro 2026 - 11:09
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O RETORNO DAS FÉRIAS

(ou: para quem precisa de férias das férias)

Depois do caos das férias, a verdade inconveniente se impõe:
às vezes a gente precisava de férias das férias.
Um tempo sozinho.
Sem familiares por perto.
Sem DRs improvisadas na cozinha.
Sem grandes almoços que começam às dez da manhã e terminam com
alguém discutindo política, herança ou a quantidade errada de sal no arroz.
Sem churrasco.
Sem acender fogo.
Sem se sujar de carvão.
Sem ficar cheirando a carne assada como se isso fosse um estado permanente
do ser.
Sem gritaria.
Sem crianças correndo de um lado pro outro, ligadas no 220, enquanto algum
adulto repete “para com isso” sabendo, no fundo, que não vai funcionar.
O sonho mesmo era outro.
Um silêncio respeitoso.
Uma casa que não exige presença.
Nada pra resolver.
Nada pra organizar.
Nada pra responder.
Nada pra limpar.
Só existir.
Mas não.
A realidade bate na porta sem aviso, porque boletos, diferente da gente, não
tiram férias.
A rotina não pede licença.
Ela simplesmente reaparece, senta no sofá e pergunta por que a gente ainda tá
cansado.
O corpo volta depois.
A agenda já retomou, mas o corpo ainda tá em outro fuso.
Dorme errado, acorda cansado, esquece coisas básicas e demora a entender
que o descanso acabou oficialmente, mesmo que a alma ainda esteja
negociando mais um dia.
A vida cobra.
Cobra disposição quando ela já acabou.

Paciência quando foi toda usada em dezembro.
Força de vontade pra levantar da cama, arrumar a casa, trabalhar, cuidar dos
filhos, do caramelo da família e, se sobrar energia, fingir algum entusiasmo
social mínimo.
É cansativo.
É injusto.
É a vida real.
E é justamente nesse caos que ela acontece.
Não no brinde.
Não na foto bonita.
Não no descanso idealizado.
É no retorno.
No cansaço acumulado.
Na rotina retomada meio torta.
No “vamos indo” que a gente repete até, milagrosamente, funcionar.
A rotina não é bonita.
Ela não inspira.
Ela não vem com propósito estampado.
Mas é ela que mantém a gente em pé enquanto o resto se ajeita.
Então… bem-vindo a 2026, meus caros.
Espero que aquela lista de objetivos do ano novo ainda não tenha sido
esquecida numa gaveta emocional qualquer.
Calma.
Ainda estamos só em janeiro.
O ano mal começou.
A exaustão também.
E minhas crônicas, felizmente, também.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
�� Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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