Toda família homeostática funciona com excelência.
Não no sentido de saudável, claro. Funciona como um sistema de emergência
permanente, onde ninguém está bem, mas todos sabem exatamente o que
fazer para que nada mude.
É um arranjo sofisticado.
Altamente adaptado.
Especialista em transformar conflito em rotina e sofrimento em tradição.
Os papéis são distribuídos cedo, quase sempre sem aviso prévio. Ninguém
escolhe. Quando percebe, já está escalado. E quem tenta pedir transferência
vira ameaça sistêmica.
Existe o Controlador Sensível, figura central do organograma emocional. Ele
não manda, apenas se preocupa. Não impõe, apenas sofre. Sua principal
habilidade é fazer o outro se sentir culpado sem jamais levantar a voz.
Frases recorrentes:
“Eu só estou preocupado.”
“Mas faz do jeito que você achar melhor.”
“Depois não diz que eu não avisei.”
O Mártir Histórico é o arquivo morto que nunca fecha. Ele lembra de tudo,
principalmente do que ninguém pediu para lembrar. Seu sofrimento não
caduca, não prescreve e não aceita atualização de versão. Sempre que o
sistema ameaça entrar em colapso, ele puxa uma história antiga da gaveta e
resolve tudo com um suspiro pesado.
O Pacificador circula exausto pela casa, tentando manter a paz num território
que nunca foi pacífico. Ele pede calma para quem sangra e compreensão para
quem corta. Costuma terminar as noites com dor de cabeça, gastrite ou uma
sensação vaga de fracasso existencial.
O Isento Profissional observa tudo de fora, como se estivesse assistindo a
um documentário mal editado. Não se envolve, não escolhe lado, mas surge
depois da tragédia com análises profundas:
“Isso é falta de diálogo.”
Geralmente dito após horas de diálogo improdutivo.
E então existe o pilar invisível do sistema:
o Bode Expiatório Funcional.
Ele não é o mais frágil. É o mais útil.
Tudo passa por ele. Tudo pesa sobre ele. Se algo dá errado, foi porque ele
provocou. Se algo dá certo, foi apesar dele. Sua função é absorver o mal-estar
coletivo para que os outros possam seguir acreditando que são razoáveis.
A dinâmica é previsível.
Cena comum. Sala de estar. Café morno. Tensão bem distribuída.
O Controlador começa:
— A gente precisa conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre você.
Sempre sobre você.
— Você anda diferente.
— Diferente como?
— Mudado.
Mudado é um termo amplo. Serve para autonomia, cansaço, limite, terapia e
qualquer tentativa de sair do papel designado.
— Eu só estou fazendo escolhas minhas — tenta o Bode Expiatório.
— Ninguém está dizendo que não pode — responde o Controlador, já
magoado.
— Então qual é o problema?
— O jeito.
O jeito nunca é explicado. O jeito é uma entidade abstrata que todos entendem,
menos quem ousou mudar.
O Mártir se ajeita na cadeira:
— Quando eu fiz escolhas difíceis, eu pensei em todo mundo.
Ninguém lembra quando isso aconteceu, mas todos concordam por reflexo
condicionado.
O Pacificador entra em pânico leve:
— Gente, calma. Não é isso que ele quis dizer.
Ninguém disse nada ainda, mas o tom já foi considerado inadequado.
O Bode Expiatório tenta se defender:
— Eu avisei antes.
— Avisou, mas não explicou.
— Expliquei sim.
— Mas não do jeito certo.
— Qual era o jeito certo?
— Agora não é hora de discutir isso.
O Isento conclui, sério:
— Tá vendo? Comunicação.
A conversa termina sem terminar. Nada se resolve. Tudo se ajusta para
continuar igual.
Famílias homeostáticas não brigam porque alguém errou.
Brigam porque alguém saiu do lugar que mantinha o sistema estável.
Quando o Bode Expiatório impõe limites, vira ingrato.
Quando se afasta, vira cruel.
Quando se cala, vira frio.
E quando finalmente começa a viver a própria vida, todos se reúnem,
sinceramente confusos, para perguntar:
— Mas o que foi que deu errado?
Nada deu errado.
Só deixou de funcionar.
Famílias homeostáticas não querem cura.
Querem continuidade.
E enquanto alguém aceitar adoecer no lugar dos outros, o sistema segue firme,
rangendo, improvisado…
mas perfeitamente adaptado à própria disfunção.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

























