1 abril 2026 - 3:40
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EU MARCO. COMPARECER É OPCIONAL

(Como comemorar um cancelamento sem parecer uma péssima pessoa)

Existe um tipo muito específico de felicidade que a gente aprende a esconder
cedo.
Não vem com grito.
Não vem com comemoração pública.
Não vem com story.
Ela vem com uma notificação.
E começa sempre do mesmo jeito: você abre o WhatsApp, lê a mensagem,
pausa dois segundos… e sente o corpo inteiro relaxar. Como se alguém tivesse
tirado um peso invisível do teu peito.
“Amiga, hoje não vou conseguir ir. Aconteceu um imprevisto aqui… vamos
deixar pra outro dia?”
E você, cidadã funcional, responde:
“Ahh poxa… sério? Que pena… mas fica tranquila, a gente remarca sim.”
Enquanto isso, por dentro:
“Graças a Deus. Graças a absolutamente tudo que rege esse universo, eu não
vou precisar sair de casa hoje.”
É um tipo de alegria discreta.
Quase espiritual.
Uma libertação sem testemunhas.
Porque a verdade — essa que ninguém coloca na bio — é simples:
tem dia que a gente não quer ir.
Não quer ver gente.
Não quer conversar.
Não quer performar simpatia.
Não quer sustentar uma energia que simplesmente não existe.
Mas a gente marca mesmo assim.
Aceita convite.
Confirma horário.
Até se anima — lá no dia em que marcou, quando a versão otimista de nós
ainda estava no controle da situação.
Só que aí o tempo passa.
E chega o dia.
E a sua versão atual, cansada de existir, é quem paga o preço.
E sair de casa vira um projeto de alto esforço, quase técnico.

Você começa a negociar consigo mesma como quem tenta convencer uma
criança teimosa:
“Tá, vou só tomar um banho e ver se melhora.”
“Se eu colocar uma roupa legal, talvez eu anime.”
“Se eu sair, vai ser bom… sempre é, né?”
Nem sempre é.
E aí vem o detalhe cruel: você já confirmou.
Já disse que ia.
Já se comprometeu.
Parabéns. Agora você é refém da própria educação.
Cancelar não é simples.
Cancelar exige explicação.
Exige justificativa plausível.
Exige um certo talento pra mentir sem parecer uma péssima pessoa.
E nem sempre a gente quer mentir.
A gente só queria poder dizer:
“Olha, eu tô cansada de existir hoje. Podemos cancelar?”
Mas isso não entra no script social.
Então a gente se arrasta.
Ou se prepara pra se arrastar.
Até que — como um presente divino entregue por uma entidade que
claramente entendeu o seu estado emocional — chega a mensagem.
Cancelado.
Você não precisou inventar nada.
Não precisou decepcionar ninguém.
Não precisou escolher entre ir por obrigação ou faltar com culpa.
Resolveram você sem você precisar se resolver.
E isso é quase perfeito.
Quase.
Porque tem um detalhe que incomoda um pouco esse alívio limpo:
você não sabe o que aconteceu do outro lado.
Pode ter sido só falta de vontade — igual a sua.
Mas pode não ter sido.
Pode ter sido um dia ruim.
Ou um cansaço que não cabe em mensagem.
Alguma coisa que a pessoa não quis, ou não conseguiu, explicar.

E você nunca vai saber.
Porque ninguém escreve:
“Hoje não vou porque estou esgotada, meio triste e sem energia pra existir
direito.”
A gente resume tudo em “não vou conseguir hoje.”
É mais simples.
Mais aceitável.
Mais limpo.
E aí fica essa situação meio torta:
de um lado, o seu alívio silencioso.
Do outro, uma possível dor que você não viu.
As duas coisas coexistindo sem se tocar.
Porque o cansaço social não é exclusivo.
Não é só seu.
Ele circula.
Passa de uma pessoa pra outra sem ser nomeado.
Todo mundo tentando dar conta de ser disponível, interessante, funcional… até
não conseguir mais.
E aí alguém cancela.
E sem querer, salva o outro também.
Talvez seja por isso que esse momento seja tão ambíguo.
Você se sente melhor.
Mas sabe que não deveria sentir tanto alívio assim.
Ou talvez devesse.
Porque, no meio de tanta obrigação disfarçada de escolha, esse pequeno
cancelamento vira um respiro raro.
Uma pausa.
Uma permissão não solicitada pra simplesmente não ir.
No fim, a gente responde bonito, mantém a imagem intacta e segue o jogo.
Mas por dentro, a verdade continua lá, meio feia, meio honesta demais:
tem dias em que a melhor coisa que pode acontecer
é alguém cancelar o plano que você não teve coragem de cancelar.
E, no cenário mais sincero de todos…
talvez a outra pessoa tenha sentido exatamente o mesmo alívio ao apertar
“enviar”.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam

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