A civilização não é sustentada por grandes tratados, acordos internacionais,
códigos de ética ou discursos emocionados sobre empatia.
Nada disso.
A civilização é sustentada por frases como:
“Tá tudo bem.”
“Depois a gente vê e resolve.”
“Vamos marcar alguma coisa um dia desses.”
“Imagina, não foi incômodo nenhum.”
“Adorei.”
Mentiras pequenas. Educadas. Perfumadas. Socialmente aceitas. Mentiras de
uso doméstico, dessas que ninguém coloca no currículo moral, mas todo
mundo usa para evitar o colapso imediato da convivência humana.
Porque a verdade, essa criatura inconveniente de sapato sujo, raramente é
convidada para sentar à mesa.
Quando alguém diz “vamos marcar”, quase nunca está abrindo uma agenda
mental para verificar disponibilidade. Está apenas encerrando uma conversa
sem parecer uma pessoa horrível.
É um “tchau” com maquiagem.
Essa frase significa, na maioria das vezes:
“Foi suportável te encontrar por acaso, mas não vamos transformar isso em
compromisso, pelo amor de qualquer entidade responsável pela sanidade
humana.”
Mas ninguém diz isso.
Porque aí não seria sociedade. Seria guerra civil no corredor do mercado.
O mesmo vale para “qualquer coisa me chama”.
Frase linda. Generosa. Quase cristã.
Na prática, significa:
“Espero sinceramente que não me chame.”
Porque, se a pessoa chamar mesmo, a alma de quem ofereceu ajuda sai do
corpo por alguns segundos.
A mensagem chega:
“Oi, lembra que você disse qualquer coisa me chama?”
E pronto.
A pessoa envelhece três anos só de olhar para a tela.
A humanidade é um espetáculo curioso: oferecemos disponibilidade total
torcendo para que ninguém tenha a ousadia de acreditar.
Tem também o clássico “depois a gente vê isso”.
Frase usada quando ninguém quer ver aquilo. Nem agora. Nem depois. Nem
em outra encarnação.
Ela é o equivalente social de empurrar uma pilha de roupas para dentro do
armário e fechar a porta rápido antes que tudo caia.
E seguimos.
Elegantes. Funcionais. Levemente falsos.
Mas talvez o ápice das pequenas mentiras sociais esteja nas perguntas
perigosas. Aquelas que parecem perguntas, mas são armadilhas emocionais
com iluminação de loja de departamento.
“Gostou do meu vestido novo?”
Cuidado.
Essa pergunta não quer saber se você gostou do vestido novo.
Essa pergunta quer saber se a pessoa pode continuar existindo em paz dentro
daquele vestido.
A resposta honesta, nesse caso, é uma arma branca.
Porque ninguém pergunta “tô bonita?” esperando uma análise técnica de
simetria facial, paleta de cores, caimento da roupa e expressão corporal.
A pessoa quer uma confirmação.
Quer ouvir que está bonita, quer se sentir bem.
E você, como boa amiga que é, diz:
“Tá linda.”
Mesmo que o vestido pareça ter sido escolhido durante uma queda de energia
emocional. Mesmo que a estampa lembre um sofá abandonado numa casa de
praia em 1997. Mesmo que a cor brigue com a pele, com o ambiente e com os
direitos humanos.
Porque você ainda deseja ser convidado para aniversários.
Existe uma diferença importante entre sinceridade e crueldade com diploma de
autenticidade. Tem gente que adora dizer “eu sou sincero” como se isso fosse
uma virtude absoluta, quando, muitas vezes, é só falta de tato usando crachá.
A pessoa não é sincera.
É inconveniente com a autoestima alheia.
A verdade não precisa sair de casa de qualquer jeito, descabelada, chutando
portas e derrubando objetos afetivos pelo caminho. Às vezes, ela pode tomar
banho, passar um perfume e escolher uma roupa menos agressiva.
Porque nem toda pergunta pede verdade.
Algumas pedem acolhimento.
Outras pedem paz.
E algumas pedem apenas que você não destrua a autoestima de alguém às 8h
da manhã na porta do trabalho.
As pequenas mentiras sociais funcionam como óleo nas engrenagens da
convivência. Sem elas, tudo rangeria o tempo inteiro.
Imagine um mundo de verdades absolutas.
“Oi, sumida!”
“Sim, sumi porque você é cansativa.”
“Vamos tomar café qualquer dia?”
“Não. Da última vez você falou quarenta minutos sobre sua reforma e eu perdi
temporariamente a vontade de viver.”
“Você gostou da comida?”
“Não muito. O arroz parece arrependido.”
“Meu filho não é lindo?”
“O importante é que ele tenha saúde.”
Pronto.
Fim da sociedade.
A civilização sobrevive porque nem toda verdade precisa ser arremessada na
cara dos outros como tijolo.
Em três dias estaríamos todos morando em cavernas, evitando contato visual e
criando leis sobre distância mínima em confraternizações familiares.
Então mentimos.
Pouco.
Com cuidado.
Por sobrevivência.
Dizemos “não precisa se preocupar”, mesmo querendo que a pessoa se
preocupe um pouco, sim.
Dizemos “tá tudo bem”, quando está tudo mais ou menos em pé, igual cadeira
velha em salão comunitário.
Dizemos “foi ótimo te ver”, mesmo quando foi apenas socialmente
administrável.
Dizemos “amei o presente”, enquanto mentalmente tentamos descobrir onde
esconder aquele objeto sem ofender o remetente nem os princípios básicos da
decoração.
E tudo bem.
Essas mentiras não são grandes traições à moral humana. São curativos
pequenos sobre a pele sensível das relações.
São acordos silenciosos.
Eu finjo que acredito no seu “vamos marcar”.
Você finge que acredita no meu “vou ver e te aviso”.
Nós dois seguimos civilizados, essa fantasia coletiva que a humanidade usa
para não sair mordendo gente na fila do supermercado.
O problema não está nas pequenas mentiras que protegem.
O problema está quando a pessoa usa “sinceridade” para ferir ou usa
“educação” para manipular.
Há diferença entre dizer “tá linda” para uma amiga que precisa de segurança e
sustentar uma mentira que prejudica alguém. Uma coisa é delicadeza. Outra é
covardia com perfume barato.
As pequenas mentiras sociais são úteis quando preservam vínculos, evitam
constrangimentos desnecessários e impedem que a convivência humana vire
um ringue emocional.
Elas são perigosas quando viram máscara permanente.
Porque também existe um limite.
A civilização precisa de mentira leve, sim. Mas também precisa de algumas
verdades bem colocadas, dessas que chegam sem gritar, mas não pedem
desculpa por existir.
Nem toda paz merece ser mantida.
Às vezes, “depois a gente vê” precisa virar “vamos resolver isso agora”.
Às vezes, “qualquer coisa me chama” precisa vir acompanhado de presença
real.
Às vezes, “tá tudo bem” precisa ser substituído por “não, não está”.
Mas, no cotidiano, naquele teatro miúdo de mercado, trabalho, família, grupo
de WhatsApp e encontros aleatórios na rua, seguimos sustentando a
humanidade com frases educadas e intenções pela metade.
“Vamos marcar.”
Não vamos.
Mas obrigada por manter a ficção social respirando.
No fundo, talvez seja isso que nos separa do caos completo: a capacidade de
mentir um pouquinho para não machucar à toa.
Mentirinhas sociais não são necessariamente falsidade. São manutenção
preventiva da espécie humana, esse projeto duvidoso que insiste em funcionar.
A civilização não está de pé porque somos seres racionais.
Está de pé porque alguém um dia perguntou “gostou?” e o outro, mesmo
olhando para um vestido duvidoso, respirou fundo e disse:
“Ficou ótimo.”
E naquele instante, contra todas as evidências, a humanidade sobreviveu mais
um dia.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)































