Tem um desejo adulto que quase ninguém admite em voz alta porque pega mal. Parece ingratidão. Parece desequilíbrio. Parece drama. Então a gente disfarça. Chama de cansaço. De “preciso descansar”. De “tô meio off esses dias”.
Mas, no fundo, às vezes o nome é outro.
Vontade de sumir.
Não morrer. Não fugir para outro estado com identidade falsa e abrir uma pousada holística para pessoas exaustas, embora em certas segundas-feiras isso pareça uma solução aceitável. É só vontade de desaparecer por uns dias sem precisar justificar nada para ninguém. Sem mandar “oi, desculpa a
demora”. Sem responder “por que você sumiu?”. Sem ter que sustentar a própria versão funcional enquanto por dentro já está tudo fazendo barulho de ferragem solta.
Porque viver, em muitos momentos, não é exatamente difícil. É cansativo de
um jeito muito específico.
Cansa responder.
Cansa parecer bem.
Cansa manter a manutenção da própria existência em dia, como se ser humano viesse com uma lista obrigatória: trabalhar, produzir, responder mensagem, lembrar aniversário, ser agradável, demonstrar equilíbrio e, se
possível, sorrir de forma minimamente convincente.
Mas tem dias em que a pessoa simplesmente não quer nada disso.
Ela não quer participar.
Não quer conversar sobre o que está sentindo porque nem terminou de sentir ainda. Não quer explicar o próprio silêncio. Não quer ouvir conselho em tom de palestra, áudio de quatro minutos, frase motivacional com fundo de pôr do sol nem aquela clássica violência disfarçada de incentivo: “mas você precisa
reagir”.
Às vezes a pessoa só queria o direito de desaparecer um pouco sem que isso virasse assunto, ofensa ou interrogatório.
E talvez essa seja uma das partes mais exaustivas da vida adulta: não basta estar mal. Ainda esperam que você esteja mal de um jeito certo, de um jeito simpático, comunicativo e organizado. Sofra, mas com educação. Colapse, mas avise antes. Se afaste, mas deixe todos tranquilos. Sangre por dentro, mas siga com boa postura, prazos em dia e uma expressão que não constranja
os outros.
É aí que mora o desejo de sumir.
Não como fuga dramática.
Como pausa técnica.
Um intervalo entre o colapso e a obrigação. Um respiro para não se afogar nesse oceano de mágoa acumulada, cansaço velho, ressentimento mal digerido e pequenas violências cotidianas que vão se empilhando até a alma
começar a pedir ar.
Porque existe um ponto em que a pessoa não quer abraço, conselho nem
superação.
Quer ausência de demanda.
Quer não precisar performar.
Quer não precisar fingir que está tudo bem.
Quer não ter que se desculpar ou explicar por que não consegue produzir mais nada.
E o mais curioso é que quase todo mundo entende isso.
Porque quase todo mundo, em algum momento da vida, já fantasiou sumir por três dias. Dormir. Ignorar notificações. Caminhar sem rumo. Comer qualquer porcaria. Ficar em silêncio. Olhar para a parede sem transformar isso em aprendizado. Voltar só quando a própria cara parecer novamente habitável.
Não é falta de amor pela vida.
Muitas vezes é exatamente o contrário.
É o jeito mais civilizado que a mente encontra de dizer: se eu não parar um pouco, eu endureço. Se eu não respirar, eu azedo. Se eu não me afastar por um instante dessa bagunça toda, eu viro alguém que responde “bom dia” com ódio no coração e destroços na alma.
E convenhamos: boa parte de nós já esteve perigosamente perto disso.
Talvez por isso essa fantasia seja tão comum e tão pouco confessada. Porque ela fere o mito da maturidade plena. O adulto supostamente funcional não deveria querer sumir. Deveria querer organizar planilha, pagar boleto, fazer
terapia, responder mensagens, sorrir, ser agradável, acessível e seguir firme.
Sempre firme. Sempre disponível. Sempre administrando tudo com a elegância de quem nunca pensou em largar o celular dentro de uma gaveta e desaparecer por 72 horas.
Mas pensou.
E, se ainda não pensou, um dia pensa.
Porque chega uma hora em que o maior luxo não é viajar, comprar alguma coisa cara ou ter uma rotina perfeita. O maior luxo é não ser acessado. É poder existir sem resposta imediata. É não precisar se explicar. É não ter que ser
agradável enquanto tenta não desmoronar.
No fundo, essa vontade de sumir por uns dias não é loucura. É saturação.
É o corpo e a mente tentando negociar um armistício antes que tudo vire
guerra interna.
Então talvez a grande fantasia adulta não realizada não seja largar tudo e começar do zero em outro lugar. Talvez seja algo bem menos cinematográfico e bem mais humano: poder ficar quieto sem culpa. Sumir um pouco sem virar caso. Desligar-se sem ofender ninguém. E voltar depois.
Não melhor.
Não renovado.
Não iluminado.
Não transformado numa versão serena e evoluída de si mesmo.
Só um pouco menos afogado.
E, francamente, no estado atual das coisas, isso já seria um milagre bastante
respeitável.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)





























