9 abril 2026 - 5:55
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ROTEIRO REPETIDO. ELENCO NOVO.

(Porque você já sabe o final… e mesmo assim compra ingresso)

Tem gente que ainda acha que começar algo com alguém novo é empolgante.
Essas pessoas… claramente não têm histórico.
Porque depois de um certo número de tentativas, você não entra mais numa
história.
Você entra num déjà vu com CPF diferente.
No começo, sempre parece promissor.
A pessoa vem com discurso bom, presença, ou uma promessa muito
convincente, parece mais madura, mais consciente…
e você pensa:
“Não, calma… dessa vez pode ser diferente.”
Você pensa isso com a mesma convicção de quem já disse “só mais um
episódio” às três da manhã.
Spoiler: nunca é.
E aí começa.
Às vezes com intensidade demais — uma urgência de proximidade, uma
necessidade de te encaixar rápido…
e junto, pequenos ajustes que parecem razoáveis demais pra você questionar.
Um “isso me incomoda”.
Um “não gosto disso”.
Um “acho melhor você evitar”.
E quando você vê… já tá editando a própria vida pra caber melhor na do outro.
Mas tudo bem, você pensa:
“Ainda tá cedo pra concluir.”
Sempre tá cedo.
Só que, em outro momento, o movimento é o oposto.
Não invade.
Esvazia.
No começo tem presença.
Depois tem resposta.
Depois tem silêncio com justificativa vaga.
E você vai sentindo antes de entender.
O afeto vai ficando raro.
O interesse vira economia.
A presença vira intervalo.

Até que você se pega naquele pensamento clássico:
“Será que eu tô pedindo demais… ou recebendo de menos?”
E quando você tenta conversar — porque você tenta, você sempre tenta —
acontece aquele truque elegante:
de repente, o problema é você.
Você não tá sentindo falta.
Você tá cobrando.
Você não percebeu mudança.
Você interpretou errado.
Pronto.
Você saiu de alguém que queria cuidado…
pra alguém que precisa justificar por querer o mínimo.
E o mais impressionante?
Você vê.
Você reconhece o padrão se formando em tempo real.
Vê o controle disfarçado de cuidado.
Vê a ausência disfarçada de rotina.
Vê a conversa virando defesa.
Vê você mesmo começando a se ajustar, reduzir, relevar…
E continua.
Porque entra naquele raciocínio meio absurdo:
“Não… ainda é cedo.”
“Talvez eu esteja sendo exigente.”
“Vamos ver até onde vai.”
E vai.
Vai exatamente até o ponto que você já conhecia.
Sem surpresa.
Sem reviravolta.
Só confirmação.
E aí não vem nem aquele drama todo de antes.
Vem um: “Eu sabia.”
Baixo.
Cansado.
Quase profissional.

Porque experiência não vem com certificado.
Vem com olheira e um radar emocional que funciona até quando você queria
que não funcionasse.
E talvez seja isso que mais pesa.
Não é começar de novo.
É perceber que, em algum momento, você vai tentar caber de novo…
ou esperar de novo…
ou relevar de novo…
Mesmo sabendo.
Mesmo já tendo assistido esse filme com figurino diferente.
Mesmo prometendo pra si mesmo que dessa vez não vai.
Vai!
Porque, no fundo — e isso aqui é meio constrangedor de admitir —
a gente ainda acredita.
Acredita que, em algum momento, alguém vai fugir do padrão.
Vai ser simples.
Vai ser recíproco.
Vai ser leve sem esforço.
E é essa esperança teimosa que faz você comprar ingresso de novo.
Mesmo sabendo o roteiro inteiro de cor.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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