25 março 2026 - 1:11
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NÓSTALGIA: A SAUDADE DE SOFRER COM ESTILO RETRÔ

(Ou: a memória também mente)

Existe um fenômeno curioso:
quanto mais inconveniente era, mais poético parece hoje.
Final dos anos 90, início dos 2000.
A galera fala como se fosse uma era mágica.
“Ah, ir na locadora escolher filme…”
Você ia, rodava entre as prateleiras como uma assombração local…
e o filme que queria nunca tava lá.
Estava alugado.
De novo.
Sempre tinha um ser humano mais rápido que você.
Sempre.
Aí veio o DVD, prometendo evolução.
E entregando um disco riscado que travava bem na melhor cena,
como se tivesse senso de timing pra te irritar.
E quando a internet começou a “melhorar”…
entrou o YouTube na jogada.
Melhorar é uma palavra generosa.
Você clicava no vídeo.
E ele começava.
Milagre.
Aí parava.
Aquela barrinha vermelha carregando com a velocidade emocional de quem
perdeu a vontade de viver.
Você ficava ali, imóvel, assistindo 3 segundos… pausa… mais 5 segundos…
pausa…
Era praticamente um trailer fragmentado.
E quando finalmente parecia que ia engatar…
travava de vez.
Ou pior:
dava erro.
Depois de 20 minutos esperando.
Ou então… surpresa.
Você baixava um clipe que queria muito ver.
Esperava dias.
Às vezes semanas.
Pra abrir o arquivo…

e descobrir que não era um clipe.
Era um pornô aleatório com nome errado.
Sem contexto, sem aviso, sem dignidade.
E, dependendo da sua sorte, ainda vinha com um vírus de brinde.
Uma lembrança digital permanente da sua inocência sendo destruída.
E no meio disso tudo ainda tinha o Orkut.
Aquela vitrine social onde você descobria, sem nenhum preparo emocional,
que era sempre a segunda, terceira ou quinta pessoa “mais importante” na vida
de alguém.
Depoimentos públicos, scraps expostos, comunidades passivo-agressivas tipo:
“Eu odeio acordar cedo”
“Eu finjo que tô bem”
“Quem visita não comenta é corno”
Era basicamente uma rede social com sinceridade demais…
e filtro de menos.
Mas hoje… hoje alguém lembra disso com carinho.
“Era mais raiz…”
Raiz de quê? De sofrimento mal resolvido?
Porque a verdade é simples:
não era melhor.
Era lento, limitado, constrangedor…
e, muitas vezes, francamente ridículo.
Mas a memória não arquiva a espera.
Ela arquiva a sensação.
A descoberta de algo novo.
A empolgação de ver um vídeo que ninguém da sua volta tinha visto ainda.
A ilusão de que aquilo era especial.
E aí ela apaga o resto.
Apaga o travamento.
Apaga o tédio.
Apaga o impulso de jogar o computador pela janela.
Apaga até o pornô aleatório que você não pediu.
E deixa só uma versão editada, mais bonita, mais leve…
mais falsa.
A memória não só mente.
Ela edita.
Recorta.
Embeleza.

E, no final…
te convence que doía menos do que realmente doeu.
E você…
ainda sente saudade.
Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam nem coach.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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