10 fevereiro 2026 - 1:59
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FAMÍLIA HOMEOSTÁTICA: UM ARRANJO ADAPTADO À PRÓPRIA DISFUNÇÃO

(ou: uma família que só funciona enquanto alguém aceita adoecer no lugar dos outros)

Toda família homeostática funciona com excelência.
Não no sentido de saudável, claro. Funciona como um sistema de emergência
permanente, onde ninguém está bem, mas todos sabem exatamente o que
fazer para que nada mude.
É um arranjo sofisticado.
Altamente adaptado.
Especialista em transformar conflito em rotina e sofrimento em tradição.
Os papéis são distribuídos cedo, quase sempre sem aviso prévio. Ninguém
escolhe. Quando percebe, já está escalado. E quem tenta pedir transferência
vira ameaça sistêmica.
Existe o Controlador Sensível, figura central do organograma emocional. Ele
não manda, apenas se preocupa. Não impõe, apenas sofre. Sua principal
habilidade é fazer o outro se sentir culpado sem jamais levantar a voz.
Frases recorrentes:
“Eu só estou preocupado.”
“Mas faz do jeito que você achar melhor.”
“Depois não diz que eu não avisei.”
O Mártir Histórico é o arquivo morto que nunca fecha. Ele lembra de tudo,
principalmente do que ninguém pediu para lembrar. Seu sofrimento não
caduca, não prescreve e não aceita atualização de versão. Sempre que o
sistema ameaça entrar em colapso, ele puxa uma história antiga da gaveta e
resolve tudo com um suspiro pesado.
O Pacificador circula exausto pela casa, tentando manter a paz num território
que nunca foi pacífico. Ele pede calma para quem sangra e compreensão para
quem corta. Costuma terminar as noites com dor de cabeça, gastrite ou uma
sensação vaga de fracasso existencial.
O Isento Profissional observa tudo de fora, como se estivesse assistindo a
um documentário mal editado. Não se envolve, não escolhe lado, mas surge
depois da tragédia com análises profundas:
“Isso é falta de diálogo.”
Geralmente dito após horas de diálogo improdutivo.
E então existe o pilar invisível do sistema:
o Bode Expiatório Funcional.

Ele não é o mais frágil. É o mais útil.
Tudo passa por ele. Tudo pesa sobre ele. Se algo dá errado, foi porque ele
provocou. Se algo dá certo, foi apesar dele. Sua função é absorver o mal-estar
coletivo para que os outros possam seguir acreditando que são razoáveis.
A dinâmica é previsível.
Cena comum. Sala de estar. Café morno. Tensão bem distribuída.
O Controlador começa:
— A gente precisa conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre você.
Sempre sobre você.
— Você anda diferente.
— Diferente como?
— Mudado.
Mudado é um termo amplo. Serve para autonomia, cansaço, limite, terapia e
qualquer tentativa de sair do papel designado.
— Eu só estou fazendo escolhas minhas — tenta o Bode Expiatório.
— Ninguém está dizendo que não pode — responde o Controlador, já
magoado.
— Então qual é o problema?
— O jeito.
O jeito nunca é explicado. O jeito é uma entidade abstrata que todos entendem,
menos quem ousou mudar.
O Mártir se ajeita na cadeira:
— Quando eu fiz escolhas difíceis, eu pensei em todo mundo.
Ninguém lembra quando isso aconteceu, mas todos concordam por reflexo
condicionado.
O Pacificador entra em pânico leve:
— Gente, calma. Não é isso que ele quis dizer.
Ninguém disse nada ainda, mas o tom já foi considerado inadequado.
O Bode Expiatório tenta se defender:
— Eu avisei antes.
— Avisou, mas não explicou.
— Expliquei sim.
— Mas não do jeito certo.

— Qual era o jeito certo?
— Agora não é hora de discutir isso.
O Isento conclui, sério:
— Tá vendo? Comunicação.
A conversa termina sem terminar. Nada se resolve. Tudo se ajusta para
continuar igual.
Famílias homeostáticas não brigam porque alguém errou.
Brigam porque alguém saiu do lugar que mantinha o sistema estável.
Quando o Bode Expiatório impõe limites, vira ingrato.
Quando se afasta, vira cruel.
Quando se cala, vira frio.
E quando finalmente começa a viver a própria vida, todos se reúnem,
sinceramente confusos, para perguntar:
— Mas o que foi que deu errado?
Nada deu errado.
Só deixou de funcionar.
Famílias homeostáticas não querem cura.
Querem continuidade.
E enquanto alguém aceitar adoecer no lugar dos outros, o sistema segue firme,
rangendo, improvisado…
mas perfeitamente adaptado à própria disfunção.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.

Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.
(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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