28 janeiro 2026 - 11:15
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O DIREITO DE SER DETESTADO

(ou: a liberdade de não ser uma versão socialmente comestível de si mesmo)

Existe uma fase da vida em que a pessoa descobre uma coisa simples, brutal e
libertadora:
nem todo mundo vai gostar de você.
E a parte mais bonita é que isso não é sinal de fracasso.
É só a realidade sendo a realidade, sem maquiagem e sem áudio de
motivacional ao fundo.
Mas como humanos têm uma relação patológica com aprovação, inventaram
uma doutrina moderna chamada:
“o culto da simpatia compulsória.”
A doutrina é conhecida pela sua santa trindade: agradar, engolir e sorrir.
Uma prática milenar de morrer por dentro pra não desagradar.
Ela te ensina a ser: simpático, leve, flexível, “fácil de lidar” e, principalmente…
a não incomodar.
Porque incomodar dá trabalho.
E o mundo odeia gente que dá trabalho.
É um sistema que grita: “seja legal e morra em silêncio.”
Uma meritocracia emocional: quanto mais você se apaga, mais te aceitam.
Um pacto silencioso com a submissão.
Com o autocancelamento preventivo.
Com a cultura do “não seja você mesmo”.
Eu também gosto de chamar de:
curso intensivo de agradar otário.
Ou, pros alunos dedicados:
o pacote premium da autoanulação.
O problema é que agradar não é amor. É estratégia.
Quem tenta ser amado por todos vira uma criatura curiosa:
uma pessoa sem arestas.
E gente sem arestas até parece evoluída… mas no fundo só está exausta.
A pessoa aprende a se adaptar como água: muda o tom, muda o humor, muda
o jeito, muda até a ética, dependendo do ambiente.
Em cada lugar, um personagem: a profissional impecável, a amiga acolhedora,
a filha obediente, a namorada tranquila, a pessoa “madura” que entende tudo.
É o modo econômico da personalidade.
É cosplay de pessoa aceitável.

E aí, no fim do dia, sobra uma pergunta desconfortável:
quem, exatamente, está vivendo aí dentro?
Ser amado por todos é suspeito.
Ou é mentira, ou é marketing.
Porque, sinceramente: alguém pode ser pontual, educado, gentil, honesto,
prestativo, equilibrado, carismático e ter energia de golden retriever
emocional…
…e ainda assim alguém vai detestar.
Não pelo que você fez.
Mas pelo que você representa.
A verdade é que o ódio alheio costuma ser sobre o espelho, não sobre você.
Muita gente não odeia você.
Odeia o que você desperta.
Odeia porque você tem coragem.
Tem limite.
Tem opinião.
Tem autonomia.
Odeia porque você faz o que elas não conseguem:
não se ajoelhar para ser aceito.
E aí vem o clássico:
“Nossa, como você mudou…”
Sim.
Mudou porque cansou.
E esse é o tipo de mudança que salva.
E aqui entra o grande escândalo da maturidade:
ninguém é obrigado a gostar de você.
E ainda bem.
Porque se todo mundo gostasse… seria sinal de que você virou um produto
universal:
sem gosto forte, sem cheiro, sem risco.
E alguém precisa dizer:
pessoas de verdade causam reações.
Quem não causa reação não está sendo autêntico.
Está sendo conveniente.
A máscara promete proteção. Entrega prisão.
A máscara dá aplauso.
Mas rouba uma coisa essencial: pertencimento real.

Porque ninguém ama o que não conhece.
No máximo aprova.
E ser aprovado é ótimo: para currículo, reunião, entrevista de emprego e para
lidar com gente falsa.
Mas para viver?
Aprovação não abraça.
O punchline do amadurecimento emocional é este:
ser detestado é um filtro.
Ser odiado, muitas vezes, não é prova de que você é ruim.
É só prova de que você não cabe na fantasia de alguém.
E o auge da liberdade é aceitar isso:
se permitir ser vilão na história de outra pessoa.
Porque nem todo mundo está pronto para lidar com gente inteira.
Alguns só gostam de você enquanto você é: controlável, útil, dócil e previsível.
Quando você cresce, perde “carisma”.
Na verdade, perde a submissão.
E isso assusta.
No fim, ser detestado é um marco de saúde.
É sinal de que você finalmente parou de viver em versões reduzidas.
Ser detestado significa: que alguém tentou te moldar e falhou, esperava
obediência e encontrou limite, ou queria uma versão pequena e recebeu uma
pessoa inteira.
E se isso incomoda…
excelente.
Porque a vida é curta demais para ser simpático com quem só gosta da sua
máscara.

Por Sarah Bruning Ascari
Psicóloga em crise existencial, colunista por teimosia e especialista em dizer
verdades que muita gente prefere evitar.
Contato: sahbruning@gmail.com
Aceito propostas, críticas construtivas e debates civilizados.
Só não aceito pirâmide financeira, corrente de oração, spam e coaches.

(Já tentei pensar positivo. Não funcionou.)

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