4 dezembro 2020 - 5:33

Volta às aulas em meio à pandemia: a relação entre infância e isolamento

Médicos sugerem medidas a serem adotadas pelos estudantes e instituições de ensino

Na porta de algumas salas de aula, as máscaras escondem o dual da expressão das crianças: o contentamento do reencontro e o receio de uma segunda onda da doença no país. O retorno às aulas no Rio Grande do Sul, por exemplo, só é possível  em virtude do decreto publicado pelo Governo do Estado, que permite atividades educacionais presenciais nas escolas particulares em cidades que estão em bandeira laranja ou amarela, no modelo estadual de distanciamento controlado, há pelo menos oito dias.

Discussões sobre a retomada gradual das atividades escolares resultam em diversas reflexões sobre os possíveis impactos causados pelo isolamento às crianças. Um artigo publicado pela revista científica The Lancet, que avaliou jovens chineses, ponderou que o fechamento prolongado da escola e o confinamento em casa durante o surto de uma doença podem ter efeitos negativos na saúde física e mental. As evidências sugerem que, quando as crianças estão fora da escola (por exemplo, aos fins de semana e nas férias), elas são fisicamente menos ativas, ficam mais tempo em frente às telas, têm padrões de sono irregulares e dietas menos favoráveis. Isso tudo resulta em ganho de peso e perda da aptidão cardiorrespiratória. Esses efeitos negativos sobre a saúde tendem a ser muito piores ao ficarem encerradas em suas casas, sem atividades ao ar livre e sem interação com os amigos.

Em contrapartida, há o exemplo de casos sem êxito na Europa. No continente, alguns países já retornaram às aulas, como a França, que desde 11 de maio reabriu as escolas após o fim do confinamento. Porém, a OMS alertou recentemente que os novos casos semanais de COVID-19 em alguns países da região superam os notificados quando a pandemia se manifestou pela primeira vez, em taxas qualificadas como “alarmantes” – isso antes da chegada do inverno, sugerindo uma segunda onda. Madrid, capital da Espanha, já isolou mais de um milhão de pessoas em um bairro da cidade.

O que dizem os especialistas

Para o Chefe da Pediatria do Hospital Moinhos de Vento, João Ronaldo Krauzer, o argumento de manter as crianças isoladas é uma resultante da prevenção delas enquanto vetores da doença. “Acredito que deva acontecer sim o retorno, mas de forma gradual”, salienta o médico. Krauzer pontua que crianças entre 3 e 6 anos não conseguirão cumprir com todas as medidas de distanciamento, o protocolo de utilização de máscara em tempo integral e realizar a higienização frequente das mãos. “Esses complicadores devem implicar na redução de alunos por sala de aula, tendo em vista a necessidade das escolas em efetuar adequações em todos os ambientes”. O médico chama atenção para o risco de efeitos colaterais do álcool gel em excesso: “a criança pode passar o produto e esfregar as mãos nos olhos, ou colocar na boca e isso pode ter consequências. Por isso, a atenção tem que ser redobrada”.

De acordo com Krauzer, o melhor método de retomada seria o modelo híbrido: “se vendo a necessidade da criança precisar ir ao ambiente escolar, que se faça um estímulo no presencial para que ela prossiga em casa as atividades iniciadas em sala de aula”. Para suspeita de estudantes com coronavírus, o médico sugere apenas o isolamento do pequeno grupo de sala de aula da criança que apresentar o quadro sugestivo. “Não há necessidade de fechar toda a escola. Com a abertura, o número de casos deve aumentar, mas as crianças não são acometidas geralmente de forma grave. Por isso, isole-se só o grupo que teve contato direto e frequente”, encerra.

Já Paulo Gewehr, infectologista do Hospital Moinhos de Vento, sugere que o retorno às aulas presenciais deva ser gradual e planejado com um conjunto de medidas de prevenção, sendo essencial o engajamento de toda a comunidade escolar. “As medidas que deverão ser implementadas têm foco no indivíduo, no ambiente e nos processos”. O autocuidado contínuo é fundamental, dentro e fora do colégio, sendo o uso da máscara e a lavagem de mãos as ações mais importantes. O médico reforça ainda a importância da ventilação, a limpeza frequente dos espaços, o distanciamento físico e a identificação precoce de casos suspeitos e contactantes, pelas escolas e pais.

Diminuição de casos respiratórios virais

Um fenômeno marcante dessa pandemia foi a saúde das crianças. Com o isolamento social, assim como reduziu a transmissibilidade da Covid-19 entre as crianças, decorreu o desaparecimento de outros vírus. No serviço de emergência do Hospital Moinhos não houve, desde o início da pandemia, em março, nenhum atendimento de bronquiolite associada a vírus respiratório sincicial e nenhum caso isolado de influenza e adenovírus.

Em relação aos atendimentos totais, neste mesmo período do ano passado a instituição atendia cerca de 120 crianças por dia. Hoje, há uma média de 20 a 25 por dia, com considerável redução de auxílio em doenças respiratórias. “O distanciamento impediu que outros vírus fossem transmitidos, principalmente os respiratórios”, conclui Krauzer, afirmando que casos de traumas e apendicite se tornaram os mais comuns, com a baixa procura de consultas pediátricas por fatores virais.

Por Melina Fernandes: Equipe de Atendimento – Moinhos Critério

- Anúncio -
-Anúncio-
-Anúncio-
a href="#">
-Anúncio-