23 julho 2021 - 11:31

Saúde mental dos policiais em pauta

Entrevista com a psicóloga Maria Antonieta Beck

A saúde mental dos policiais está em voga no Brasil, onde o número de policiais que tira a própria vida é maior que o dos que morrem em serviço, segundo o relatório anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O estudo, divulgado no final de 2020, aponta que, somente em 2019, 91 policiais – militares e civis – cometeram suicídio. Já os mortos no trabalho foram 72. Fora de serviço, 101 policiais foram mortos.

O assunto chamou a atenção do Senado Federal. Em abril foi aprovado o projeto de lei que inclui ações voltadas para a promoção da saúde mental e prevenção ao suicídio no Programa Pró-Vida, voltado para profissionais de segurança pública, cujo objetivo é oferecer atenção psicossocial e de saúde no trabalho aos profissionais de segurança pública.

A psicóloga Maria Antonieta B. Beck, membro da Comissão de Psicologia, Justiça e Segurança Pública  do CRP-12 (Conselho Regional de Psicologia de SC), concedeu entrevista sobre a saúde mental dos policiais.

Como você entende que a violência afeta a saúde psicológica dos policiais?

Os policiais, de maneira geral, costumam apresentar perfil profissiográfico para o exercício da função e também se capacitam durante a formação, porém não elimina o adoecimento pela constante exposição à violência, aos confrontos armados e o temor da morte.

Quando não tratados preventivamente, a tendência é que, a partir do terceiro ano, apresentem sintomas referentes à exposição constante. Geralmente começam com os sintomas físicos, alteração do sono, aumento do peso, problemas gástricos. Depois, vem as queixas sobre relacionamento interpessoal, dificuldade de adaptação, baixa tolerância, condutas persecutórias e, por fim, a instalação dos transtornos, quando não diagnosticados e tratados a tempo.

Exemplos de transtornos mais constatados: ansiedade, pós-traumático, transtorno de ansiedade generalizada e transtorno de dependência química (álcool – tabaco).

É importante salientar que, em instituições policiais militares, que se caracteriza por forte disciplina e hierarquia, a organização do trabalho pode desenvolver tensão e sofrimento psíquico.

Quais estratégias devem ser consideradas para a prevenção do adoecimento psicológico do policial?

O policial deverá receber, na entrada na corporação, o acompanhamento multidisciplinar. A importância da saúde clínica, a pronta resposta metabólica, sono regular, bons hábitos alimentares, vida social satisfatória, família e filosofia de vida ou religiosa são fundamentais como estrutura desses indivíduos.

Os aspectos psicológicos e as abordagens preventivas, com técnicas cognitivas comportamentais e recursos necessários, são basilares para o devido engajamento e pronta resposta para o que o acomete no momento.

 Quais aspectos devem ser considerados no atendimento psicológico a policiais?

Primeiro, se ele está em sofrimento. Oferece risco a si ou a outras pessoas? O atendimento é preventivo?  Veio de confronto armado? Encaminhamento médico? Corregedoria? É um pedido de ajuda ou mascaramento de possível delito? Em todos os casos citados é necessária a intervenção.

Deve-se ficar atento às habilidades cognitivas e ao comportamento dos policiais, bem como às técnicas profissionais do psicólogo.

Colaboração: Ricardo Macuco / RMC Comunicação

- Anúncio -
-Anúncio-
-Anúncio-
-Anúncio-