29 setembro 2020 - 2:14

Mesmo com chuvas, uso racional e cuidado com rios são base para o futuro

Profissionais visitaram pontos críticos atingidos na Bacia do Rio Urussanga pela estiagem prolongada

Santa Catarina é atingida por uma grave estiagem desde 2019, que foi intensificada nos últimos meses. O fato resultou em uma crise hídrica que afetou diversas áreas como abastecimento para consumo humano, agricultura e indústrias. Com o intuito de identificar os pontos críticos relacionados a estiagem na bacia do rio Urussanga, profissionais ligados ao Comitê da Bacia do Rio Urussanga realizaram recentemente uma saída de campo.

Na visita técnica, os profissionais Antônio Adílio da Silveira, engenheiro químico e representante das organizações membros do segmento de usuários de água, Rose Maria Adami, Dra. em Geografia e técnica da AGUAR, e Rosemar De Nez, geógrafo e colaborador no projeto “Minha Escola, Meu Rio”, percorreram onze pontos da bacia hidrográfica, sendo dois relacionados ao lançamento de esgotos e oito de captação de água para abastecimento público.

Os pontos visitados para captação foram os rios Maior, Café e Barro Vermelho, em Urussanga; ribeirão da Areia, em Pedras Grandes; córrego Niero e rio Vargedo, em Treze de Maio; lagoa do Faxinal, em Balneário Rincão; rios Tigre e Ferreira Pontes, em Cocal do Sul. “Destes, nove pontos visitados, apenas o rio Maior estava com vazão ecológica, ou seja, com volume de água que passa por uma seção de um rio durante uma unidade de tempo, que assegurem as condições mínimas de manutenção e conservação dos ecossistemas aquáticos naturais. Os demais pontos de captação estavam com um volume de água muito baixo, assim como os diferentes açudes utilizados para dessedentação de animais, nas propriedades rurais”, comenta Rose.

As chuvas nos últimos dias amenizaram a estiagem prolongada, porém ainda não supriram os números negativos no solo e baixos nos reservatórios de abastecimento de água. A previsão aponta uma nova perspectiva, mas alerta que o uso racional da água e o cuidado com os rios serão fundamentais para o futuro.

“A estiagem agrícola se encerra porque o solo fica totalmente encharcado nesse primeiro metro de profundidade. Mas precisa chover mais para garantir o reabastecimento do lençol freático, dos rios, das barragens. Ou seja, para abastecimento de água é necessário maior volume de chuva para exceder e sobrar para os mananciais. Nas próximas semanas virá pouca chuva. Não dá para afrouxar de vez esta racionalidade de uso da água. Modelos colocam resfriamento do Oceano Pacífico nos próximos meses, o que configura um fenômeno La Ninã de fraca intensidade. Normalmente com isso temos primaveras menos chuvosas, então pode retornar a estiagem nos próximos meses novamente”, esclarece o climatologista, Márcio Sônego.

OS REFLEXOS DA ESTIAGEM

No município de Treze de Maio, o morador Proventino Perdona, da comunidade de Lages, relatou que mora na comunidade há 30 anos e jamais havia visto uma estiagem com essa intensidade. Ele contou aos profissionais que faz uso da água de poço e nos últimos dias só conseguiu abastecer uma caixa de água de 300 litros por dia, já que o poço está com pouca água. Alguns municípios como Cocal do Sul, Morro da Fumaça e Urussanga estavam utilizando caminhões pipas para transportar água de alguns rios e levar a alguns reservatórios.

“A estiagem trouxe a tona necessidade de se cuidar melhor dos rios que integram a bacia hidrográfica do rio Urussanga. A falta de chuva poderia ser amenizada com a implementação de algumas práticas conservacionista no território bacia, uma vez que, a água que escorre superficialmente pelo solo (desprotegido) provoca perda de nutrientes nas propriedades rurais, aumenta os processos erosivos e causa o assoreamento dos rios e nascentes. Vários estudos realizados no Brasil indicam que a adoção de práticas conservacionistas em propriedades rurais melhora a qualidade da água e aumenta a sua vazão como, por exemplo, a recuperação das áreas de APP e a adoção do Programa Produtor de Água. O Programa usa o conceito de Pagamento por Serviços Ambientais, que estimula os produtores a investirem no cuidado do trato com as águas, recebendo apoio técnico e financeiro para o desenvolvimento de práticas conservacionistas. Assim, além do ganho econômico da sua produção, o produtor também melhora a quantidade e a qualidade da água, beneficiando toda a população inserida na bacia”, pontua Rosemar.

VEGETAÇÃO É ALIADA NA PRODUÇÃO DE ÁGUA

Além do agravamento da estiagem com a falta de chuvas no último mês, durante todo o trajeto percorrido das áreas mais altas para as mais baixas na bacia, alguns fatores que contribuem para a escassez de água chamaram a atenção dos profissionais na bacia do rio Urussanga. A principal delas foi a falta de cobertura florestal nas áreas de entorno das nascentes, dos rios, dos reservatórios e dos topos dos morros, em praticamente todos os municípios percorridos.

“Essas áreas são consideradas pelo Código Florestal Brasileiro, como Áreas de Preservação Permanente (APP), que determina as elas uma distância mínima de preservação da vegetação nas margens de nascentes, rios e topos de morros. Estudos realizados anteriormente pelo Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Urussanga, mostram que 33% da área da bacia é composta por pastagem e apenas 25% do território da bacia com florestas em estágio médio ou avançado de vegetação. Essa vegetação encontra-se principalmente nos topos de morros”, explica Rose.

Segundo a Dra. em Geografia, a vegetação tem um papel ambiental fundamental na produção de água, manutenção da qualidade da água, estabilidade dos solos e redução do assoreamento nos rios e a regularização dos ciclos hidrológicos. “Sem contar que a vegetação forma corredores que contribuem para a conservação da biodiversidade, fornecem alimento e abrigo para a fauna, constituem barreiras naturais contra a disseminação de pragas na agricultura e, absorvem e fixam dióxido de carbono, que é um dos principais gases responsáveis pelas mudanças climáticas”, frisa.

VISITA RESULTA EM DOCUMENTO

Em praticamente todos os municípios, outra observação registrada pelos profissionais foi a drenagem e aterros nas áreas de banhados ou charcos, onde afloram as inúmeras nascentes nas áreas de várzeas, chamadas ‘difusas’. “Essas nascentes são fontes importantes, pois originam os cursos d’água e, quando conservadas, alimentam os rios de forma abundante e contínua. Além disso, por vezes, constituem a principal fonte de água em algumas propriedades rurais para dessedentação de animais”, completa Rose.

Além disso, diversas fontes de poluição ao longo do rio Urussanga, como a drenagem ácida da mineração de carvão, o lançamento de esgotos domésticos e indústrias não tratados e descartes de resíduos sólidos de diferentes naturezas, foram observadas. “Vale lembrar que para diluição de efluentes domésticos e industriais tratados ou não dentro de um corpo d’água, os setores necessitam de outorga de lançamento, solicitada a SDE, que consiste em uma concessão na utilização de recurso hídrico para diluição dos seus efluentes. Essas observações servirão de base para elaboração de um documento com sugestões de práticas de segurança hídrica para as organizações membros do Comitê da Bacia do Rio Urussanga e seus representados”, conta.

Para Antônio Adílio da Silveira, engenheiro químico e representante das organizações membros do segmento de usuários de água, a situação da estiagem está muito crítica, principalmente nos pontos de captação de água. “No entanto é importante destacar que diversas atividades humanas provocam alterações na qualidade e quantidade de água nos nossos mananciais, como a retirada da mata ciliar e vegetação nativa. Outro ponto é a falta de cuidado com os rios. Percebemos que o leito é usado como local de descarte de lixo, de resíduos e até de animais mortos. Na foz observamos partes que estão sendo aterradas na margem e construções a menos de 20 metros do rio. Situação complicada que expressa a falta de respeito e consciência do ser humano com os recursos hídricos e o meio ambiente. Só lembram da água em época de estiagem ou quando falta. Trabalho desde 1982 com recursos hídricos e acumulo a experiência de 35 anos em empresa de saneamento. Nunca vi situação de estiagem tão crítica como agora”, finaliza o engenheiro.

Fonte: Comunicação Comitê Rio Urussanga
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