27 novembro 2021 - 11:12

Andrey Gonçalves renova o jazz contemporâneo em seu CD de estreia

Radicado há oito anos nos EUA, contrabaixista capixaba lança “Nocturnal Geometries”, acompanhado por um sexteto jazzístico de ponta

Com uma lista de turnês pela Europa, América do Sul e Estados Unidos, o contrabaixista e compositor capixaba Andrey Gonçalves vem alçando invejáveis voos no cenário do jazz internacional, temperando ainda mais o jazz contemporâneo com ingredientes brasileiros e iguarias capixabas. Radicado nos Estados Unidos há oito anos, onde cursa Doutorado em Jazz e Educação Musical pela Universidade de Illinois – instituição onde também ensinou práticas de contrabaixo e big band por três anos – Andrey traz para o Brasil o seu primeiro disco solo, “Nocturnal Geometries”, já disponível nas plataformas digitais, cercado por um sexteto de músicos que excedem qualidade.

Nestes oito anos nos Estados Unidos, o músico já acumulou experiências impressionantes, tocando com Frank Gambale, Chuchito Valdés, Alain Broadbent, Willy Thomas e Denis DiBlasio, dentre outros. Em orquestras, atuou com a Orquestra Cívica de Champaign-Urbana, Orquestra Sinfônica de Champaign Urbana, a Orquestra de Sopros Sacred Winds e a Milikin-Decatur Symphony Orchestra, além de apresentações com o violoncelista/cantor pop Ben Sollee e o quarteto de trombones Maniacal 4. Como músico de estúdio, já gravou baixo em 27 discos, produziu 5 discos e compôs trilhas para 3 jogos de computador. Atualmente, Andrey é professor de contrabaixo acústico e elétrico na Olivet Nazarene University ao sul de Chicago, na cidade de Bourbonnais, Illinois.

“Nocturnal Geometries”, seu CD de estreia, é composto por músicas que o baixista criou ao longo de um ano sob a orientação de seu professor de composição Jim Pugh, que já foi trombonista de nomes como Chick Corea e atualmente toca com Steely Dan. Utilizando técnicas modernas sugeridas por Pugh, a forma de composição conferiu aos temas uma roupagem mais contemporânea. “Nos anos de 2016, eu iniciei meu doutorado em Jazz e Educação Musical na Universidade de Illinois. Eu decidi fazer aulas de composições com extraordinário trombonista e professor Jim Pugh. Foi um processo de aprendizado muito bonito e pude desenvolver novas formas de comunicar minhas ideias e expandir os caminhos harmônicos e melódicos de minhas músicas”, revela Andrey. “Durante um ano, eu compus todas as semanas, geralmente a noite, no silêncio do meu quarto. Era eu, o piano, o lápis e a partitura. Reparei que as técnicas que estava estudando tinham nomes ou conceitos geométricos: quadrad, pentatonic, ocatonic. Além disso, o silêncio noturno foi um elemento essencial para instigar a minha criatividade enquanto eu lidava com o caos e o estresse do primeiro ano de doutorado”, explicando o conceito e o título do álbum.

“Dois anos depois, cinco músicos fenomenais abraçaram o projeto do meu primeiro álbum e assim iniciei a produção do disco. As sessões no estúdio foram bem rápidas pois gravamos tudo ao vivo e fazendo leitura à primeira vista (sim o conceito era captar a música com o máximo de espontaneidade possível!). Para gravar tudo ao vivo, foi um desafio colocar seis músicos na sala de gravação. Estávamos tão próximos que podíamos escutar as batidas do coração e a respiração de cada um”, comenta Andrey para, em seguida, ressaltar a experiência fantástica e um grande momento de comunhão musical que se formou no estúdio. “Cada um representava um mundo musical diferente, mas estávamos unidos pela mesma pulsação, estabelecendo nossas opiniões musicais, improvisando e criando um diálogo único com nossos sons”.

Os arranjos, elaborados em parceria com o trombonista Ethan Evans, deixam o sexteto livre para promover uma fusão de música brasileira, jazz e ritmos caribenhos. Gravado em janeiro de 2019 com músicos ativos nas cenas jazz de Chicago, Utah, Detroit, West Virginia e Denver, o CD teve seu lançamento suspenso no ano passado por conta da eclosão da pandemia do coronavirus.

CD “Nocturnal Geometries” – ouvir online – https://open.spotify.com/album/7ejWnYKCidAOZ1Usv9d9Yh 

Faixa a faixa:

1 – Quadrad: “o nome vem de uma técnica que eu utilizei pra compor, você coloca 4 dedos posicionados aleatoriamente no piano e a partir dessas notas constrói-se uma escala sintética com modos e acordes. Quadrad começou como uma salsa, mas migrou para o que foi gravado”.

2 – This is Not a Blues: “meu professor me pediu pra compor uma música usando a pentatônica blues, mas a música não poderia ser um blues. Num fim de semana, fui visitar a tia da minha esposa em Crestwood, Kentucky. O local é paradisíaco, todo rodeado por mato e vida selvagem. Sentei-me na varanda da casa e comecei a esboçar umas ideias. Com 20 min a música estava pronta. Em 2018, quando estava fazendo uma temporada com um pianista em Ouro Preto, mostrei a composição e o cara leu e comentou “Nossa, isso soa muito como Art Blakey.” Acabei arranjando na estética do Art Blakey. Essa é a música mais “jazz tradicional” do disco”.

3 – Anna and the Moon: “Essa faixa a única que tem uma história longa a respeito dela. Também utilizou a técnica “quadrad”, mas simplifiquei bastante na concepção de melodia e harmonia porque queria uma balada mais melancólica. Usei essa faixa para homenagear uma enfermeira chamada Luanna. Em dezembro de 2018, fui visitar minha família no Brasil com minha esposa. Estava atravessando uma rua de Vitória com minha esposa e uma moto me atropelou. Fui parar na UTI com traumatismo craniano… foi foda. A minha sorte é que uma enfermeira estava passando na hora do acidente e me socorreu, chamou a ambulância. O nome dela é Luanna, nunca a vi, não sei como é o rosto dela… só sei que ela existe porque minha esposa me conta dela. Estou vivo por causa dela. O nome da música é uma “brincadeira” com o nome dela: Lua e Anna. Aí fiz de uma forma que fizesse sentido em inglês. O título também é um palíndromo, com palavras com 4 e 3 letras – Anna (4), and (3), the (3), Moon (4). Anna e Moon também repetem a letra do meio (nn – oo). Anna também é um palíndromo”.

4 – Waterfall for a Cubist Passion: “fiz essa música inspirada por uma pintura do Picasso que vi no Guggenheim de Nova Iorque em 2012. A pintura não representava uma fase clássica do Picasso, mas me marcou muito. Compus tudo como se fosse uma história de uma paixão, usando a técnica de through-composed (onde as seções da música raramente se repetem e seguem para uma nova parte). Essa música já estava arranjada para octeto há anos, mas adaptei para o disco. É a faixa que obtém mais comentários positivos do público”.

5 – The Tree of All Inventions: “Fiz essa música baseada numa ilustração que explica a riqueza da cultura brasileira. A ilustração é um totem com elementos que são muito peculiares à nossa cultura. A música em não tem nada de brasileira porque eu não queria soar tão óbvio. Preferi a inspiração para compor e, na hora da gravação, sugeri ao baterista que incluísse elementos da ciranda brasileira”.

6 – Ocatonic Lullaby: “eu tive que compor uma música usando a escala octatônica, uma escala simétrica de oito notas, às vezes organizada em meio tom e tom… ou tom e meio tom, o que confere um bem angular, duro. Peguei uma das formas de organização e fui analisando até quebrar o padrão e compor uma canção de ninar. Acho que compus essa música em 1 hora. Quando acabei de compor, tive uma sensação muito forte, liguei pra minha esposa e comentei “acabei de compor a canção de ninar pro nosso primeiro filho.” Sophia só nasceu em 2021, mas ela acompanhou o processo de mix e máster do disco dentro da barriga da barriga da mãe”.

7 – Mancada: “sambinha duro pra fechar o disco porque eu sou brasileiro e queria pelo menos ter uma faixa que fosse mais um “lugar comum” pra mim. Mancada foi composta usando fragmentos de frases e com a ideia de deixar bastante espaço pra bateria solar. Além da intro, que é bem chata de tocar, o “refrão” de Mancada tem uma modulação métrica entre 2/4 e 6/8 que entorta a cabeça de quem tenta tocar. Essa foi a única música que tivemos que repassar na gravação porque geral mandou mal na primeira passada… portanto, rolou a maior mancada no estúdio… rs”

Ficha técnica

Produzido por Andrey Gonçalves

Todas as composições de Andrey Gonçalves (Kopishawa Music).

Arranjos: Ethan Evans.

Gravado em nos dias 18 e 19 de janeiro de 2019, no Unit One Studios em Urbana, IL.

Engenheiro de áudio: Derick Cordoba.

Mixado por Joe Corley, Pint Size Studios (Crystal Lake, IL).

Masterizado por John Tubbs, Jetman Music Services (Champaign, IL).

Fotografias por Jeff Janczewski.

Arte por Leonardo Zamprogno.

Andrey Gonçalves – Contrabaixo e Baixo Elétrico

Kurt Reeder – Piano

Andy Wheelock – Bateria

Robert Brooks – Saxofone Tenor

Robert Sears – Trompete

Ethan Evans – Trombone

Kopishawa Music – Todos os direitos reservados.

Colaboração: Fábio Cezanne – Cezanne Comunicação – Assessoria de Imprensa em Cultura e Arte

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